Trail Run

Marathon du Mont-Blanc: relato de Andre Medeiros

Por Adventuremag em 6 julho 2018
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por Andre Medeiros

Tudo começou ano passado, depois de conversar com Weliton Carius sobre a prova e outros amigos que também tinham feito em anos anteriores. Devido às circunstâncias, família,  trabalho e uma nova graduação em andamento, precisei me ausentar das corridas de aventura que tanto amo, minha origem, meu vício incondicional. Precisava então arrumar algo para fazer como prova alvo em 2018, pontos no ITRA já tinha, faltava apenas a loteria.

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Conversei com dois grandes amigos Daniel Vasconcelos e Rafael Peixoto, aqueles do tipo que aceitam qualquer roubada (!). Inscrições feitas, bingo na loteria e nossos pesadelos só estavam começando. (rs) Não tinha pra onde correr, apenas para as trilhas, subir e descer montanha, por meses e meses, ajustar a alimentação, mergulhar em dietas quase “malucas” e muitas privações.

Pela primeira vez, resolvemos dividir um apartamento em Chamonix com outros amigos. Éramos seis em um apto, tudo para economizar um pouquinho mais. Foi ótimo, tudo deu certo, feliz com todos, com o companheirismo e espirito de grupo.

Voltando a prova, chegou o grande dia. Mentalmente estava preparado; fisicamente fiz o meu melhor, dentro das adversidades do dia a dia, é mais ou menos assim, “vamos com o que temos”, se quer chorar(?), chora na cama, que é lugar quente. (Zega Pagodinho).

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Acordei as 2hs, comi meu omelete e tomei meu café com óleo de coco e pronto. As 3:20hs partimos em direção à largada. Detalhe, todos foram assistir e dar aquela força final. Neste momento fico muito introspectivo, não costumo dar mais risadas, agradeço aos meus anjos da aguarda por estar ali e faço minhas orações.

Após o ultimo beijo da minha esposa, alinhamos eu, Daniel e Rafa, coração calmo, batimentos  controlado, tudo dentro do esperado. Largamos pontualmente às 4hs, aproximadamente 1.190 atletas, uma loucura, após quase 2km, entramos na trilha rumo ao Brévent 2.525m. Foi uma das vistas mais deslumbrantes que presenciei ao longo da subida, belíssima. No meio da subida, Daniel abriu e logo sumiu entre dezenas de pessoas. Passando pelo cume, foram quase 2 kms descendo até o Planpraz, pela neve, é isso mesmo.

Passei pelo primeiro posto de hidratação bem, neste momento em direção ao Flégère  2.335m. Foi um verdadeiro sobe e desce por trilhas bem técnicas e lindas ao mesmo tempo.

Consegui administrar a prova bem consciente, me alimentando e hidratando regularmente, fora os suplementos essenciais numa prova dessa magnitude.

Acredito que ao chegar no início da trilha para Barrage d’Emosson, foi o ponto crucial, onde a experiência pesou. O sol estava de lascar, era o meu grande inimigo, e ciente disso, toda água que encontrava pelo caminho, além de beber, molhava a cabeça e o corpo. (Pessoal, água gelada dos Alpes, não dá para desperdiçar,rsrs, Vale lembrar, sou corredor de aventura, não desperdiço água, pode fazer falta), neste momento seis pessoas me passaram. Isso é difícil administrar, mas vamos lá, tinha muita prova pela frente.

No meio da subida, ao olhar timidamente pra cima, vejo meu fiel companheiro Daniel, pensei (ixxxxiiiii, deve estar sofrendo com o calor), ao passar por ele, perguntei se estava tudo bem, e disse, estamos quase no topo, logo logo chega o posto de hidratação, bora.!!! Vi diversos atletas aniquilados com o calor.

Chegando no posto, comi igual a um bicho, hidratei o suficiente e aguardei o Daniel, deixando várias recomendações de comida e bebida, partindo na sequência.

Ali pra mim, iniciava uma segunda parte da prova, parecia que minhas energias estavam de volta ao topo, minha cabeça mantinha-se forte e focada. Iniciei uma descida vertiginosa, lenta e constante, mas consciente. Quando sai da trilha em direção ao posto de hidratação em Vallorcine, caralh……!!!!!! quem está no meio da pista?! Minha esposa!Chorei e tudo… (ela nem percebeu). Após um beijo relâmpago continuei correndo até o posto. Era o km60.

Como estava tudo dando certo, comi o de sempre, minhas castanhas, crambery, laranja e bebi meu isotônico. Na saída do posto, realizei o check de material. Tudo certo, parti em direção a Le Montenvers (Mer de Glace 1.913m.) No início, a trilha de subida era tranquila, mas no meio da subida, boooommmm o sol voltou impiedosamente. Vi vários atletas sentando no chão,  devastados pelo calor. Mantive o foco, voltei com meus mantras e orações, pois só faltavam 25km , caracoles me mordam….só 25km(?).

Passei pelo posto de hidratação bem destruído, mas imbuído da minha missão, de fazer a prova em 17hs. (Esse número era minha meta, desde o Brasil, só pensava neste dígito.) Ao passar pelo posto de hidratação comecei a fazer conta, minha cabeça começou a entrar em parafuso, e neste momento ….ah, veio aquela vontade de ir ao banheiro…pqp!!! Falei, agora? Continuei correndo e procurando um lugar para fazer o que tinha que ser feito, não dava mais para esperar, achei o lugar, cerca de 8 atletas passaram por mim, relaxei fiz minhas necessidades, e voltei para a prova. Sem dúvida mais leve e com a cabeça mais focada. Foi quando avistei lá longe o Plan du l’Aiguille, último ponto de hidratação. Nossa foi um alívio,  reprogramei minha mente e acelerei.

Cheguei no posto de hidratação e passei direto, após 30 metros tinha uma fonte de agua natural da montanha e claro, enfiei minha cabeça na água, enchi uma garrafinha e preparei meu endurox de chocolate (Super = maravilhoso), era a energia que estava precisando para descer até a cidade rumo à linha de chegada. Fiz uma descida quase louca, pensei em todo o aprendizado até ali,  voltei a agradecer pela oportunidade de estar correndo naquele lugar fabuloso e mágico, passei por quase 19 atletas, só na descida (meus joelhos aguentaram a porrada, foram valentes, kkk), ao sair da trilha em um descampado, avistei o asfalto e acelerei até a chegada. Consegui ultrapassar mais 5 atletas ao longo do trajeto até a curva final, rumo ao pórtico, faltando apenas 30 metros relaxei e cruzei a linha de chegada com 17hs15m 50seg. Foi mágica essa prova, valeu cada centavo de Euro.

Andre Medeiros no Marathon du Mont-Blanc

Não consegui chegar aqui sozinho, o resultado conquistado foi fruto de muito apoio e todos merecem minha gratidão e agradecimentos, família (todos sem exceção), dos amigos, minha segunda família Camelbak Outdoor Sports (alunos e ao Weliton pela energia positiva), a terceira família TRIBUS Adventure (sempre me surpreendendo), a clínica Malama (Thiago Orsi), ao Diego Kadlec, Marcinha e a CamelBak (Kiko e Pedro), vocês todos são f…..a, obrigado por tudo. Ossssss