A verdadeira aventura

Por Camila Nicolau

Aceitar o desafio de correr com uma das melhores equipes do mundo, a Columbia, atual terceiro lugar do ranking mundial de corrida de aventura, já seria motivo suficiente para muita ansiedade e euforia. No entanto, esse seria também o meu retorno após a gravidez às provas de expedição e por isso, me questionei por alguns meses se seria mesmo capaz de dar conta desse time.

Foto: Wladimir Togumi – @adventuremag

Brigar pela vitória e amamentar nas áreas de transição de modalidade durante a prova, são coisas completamente antagônicas. Priorizar meu filho em meio a competição poderia ser trágico para a nossa performance, mas mesmo assim, minha vontade era grande e esse era um time dos sonhos! Acreditei que daria certo.

Desde o início do ano fiz questão de deixar claro à equipe quais seriam todas as nossas (Kilian e eu) necessidades durante a prova e me abri emocionalmente dizendo o quanto essa experiência seria intensa e desafiadora em muitos sentidos para mim.

Todos foram muito compreensivos e acreditaram na equipe o que me deixou muito confortável e mais confiante.

Nos dias finais antes da viagem fiz um bom banco de leite congelado, que levamos na mala para o Paraguai. Na mala também foi nosso braço direito, amigo, treinador da Oficina Multisport e agora babá adventure, o Arnaldo Frazão.

Foto: Wladimir Togumi – @adventuremag

A logística da prova estava relativamente simples e nos organizamos facilmente para a largada. O mesmo não pude dizer da logística com o Kili. Começando porque não pude congelar meu leite no freezer do primeiro hotel que ficamos e todo ele descongelou. Por pouco não perdemos tudo e na verdade é recomendado descartar e não congelar novamente, mas me vi sem outra alternativa que não fosse tentar. Um amigo o levou para o freezer de sua casa e depois pude congelar no segundo hotel que ficamos! Em todo caso, comprei um pote de fórmula, comida em pó de bebê, caso o leite estivesse passado.

Também havíamos alugado um carro, mas perdemos o último horário de retirada no final de semana e agora o Arnaldo teria que se virar e ir sozinho com o bebê depois da largada!

A logística da prova estava realmente fácil perto dessa outra…

Logo após a largada me bateu um sentimento de “o que que eu estou fazendo aqui?!”. Me senti um pouco culpada, tipo a mãe desnaturada que abandona o filho, mas estava tudo muito bem combinado com o Arnaldo e qualquer coisa grave que acontecesse, o Kilian era prioridade.

Eu os veria uma vez ao dia para amamentar e movida a esse encontro diário me motivei mantendo o foco e em boa sintonia com o time.

Todos estavam muito determinados e isso nos ajudou a não perder tempo algum e sermos velozes durante todo o percurso.

Ao escurecer do primeiro dia havíamos deixado pra trás 11km de canoagem, 7km de orientação a pé, mais 20km de canoagem e 42km de trekking num total de 80km. No final do trekking de 42km encontrei pela primeira vez com o Kili e ele mamou vorazmente meus dois peitos que estavam bem empedrados do leite parado lá por muito tempo, foi um alívio!

Mais 45km de canoagem e esse trecho foi épico! Buscávamos o Ponto de Controle 18 (PC18) que era uma ilhota a mais de 10km da costa paraguaia no meio do Rio Paraná, haviam ondas e corrente nesse rio e apenas uma referência no meio do trajeto que era uma bancada de areia com uma luz piscante branca. Gui estava focado e não tirou o olho da bússola nem um segundo. As estrelas também foram nossas guias naquele breu infinito. Foi emocionante ter alcançado tão bem esse PC, parecia cena de filme de piratas achando o baú de ouro depois de anos de busca. No nosso caso foram só algumas horas, mas depois soubemos que muitas equipes tiveram problemas com esse PC18 e ele acabou sendo cancelado para segurança da prova.

Foto: Wladimir Togumi – @adventuremag

Mais 140km de bike onde tive muitos problemas no meu pneu traseiro logo nos primeiros 10km e na sequência um trekking de 69km e previsão de 24 horas para a primeira equipe.

Entramos na segunda noite no início desse trekking e como planejado paramos a primeira vez para dormir durante uma hora, mas as noites eram tão longas quanto os dias e antes do amanhecer precisamos de mais 15 minutos.

Com o raiar do terceiro dia já passávamos da metade da expedição e tudo ia muito bem, comemos abacate, mamão, laranja e tangerina do pé, um refresco para o sol que já torrava às 8 da manhã.

Gui e Nick continuavam gabaritando a orientação do percurso enquanto Jonander nos entretinha com suas infinitas piadas e brincadeiras.

No meio da tarde finalizamos esse trekking e lá estava meu pequeno! Com uma vantagem confortável diante da segunda equipe podia ficar mais uns minutinhos com ele e percebi que o Arnaldo estava se saindo muito bem e muita gente o distraía também. Ele estava cheio de novos amigos!

Foto: Wladimir Togumi – @adventuremag

Mais 35km de bike, 75km de canoagem e 41km de bike para o final da prova. Por mais que o pior já tivesse passado, mais de 20 horas ainda nos separavam da linha de chegada e muita coisa ainda podia acontecer.

Antes de partir para a bike de 35km compramos 16 empanadas quentinhas que o Jon fez questão de carregar para nos poupar!

No início da terceira noite chegamos a área de transição (AT) da canoagem de 75km onde dormimos por duas horas e seguimos rio abaixo. Essa era nossa última noite e mesmo dormindo o sono nos bateu muito. Gui e eu cantamos todo o nosso repertório, agora também com músicas infantis e teve muita água na “cara” pra acordar e muita conversa.

Foto: Wladimir Togumi – @adventuremag

No final desse trecho já sentíamos uma emoção, ainda que contida, do nosso feito. Faltavam 41km de bike com uma tirolesa no meio. Encontrei com o Kilian, nos abraçamos muito e dali a 4 horas nos reencontraríamos para sempre!

O sol era forte e um vacilo poderia comprometer toda a nossa prova, fomos cautelosos e paramos em todas as torneiras e rios que cruzamos nesse trecho. Compramos din din (geladinho para nós paulistas) que servia de refresco para a pele dentro da roupa e para hidratar.

Fogos de artificio anunciaram a nossa chegada, mas como o Kilian não foi avisado caiu no choro de tão assustado. Nem meu colo deu conta de acalmá-lo! Comemoramos muito emocionados e uma cadeira muito confortável nos aguardava com uma bela pizza.

Sem pressa, pude amamentar e relaxar. Tudo havia passado e de agora em diante voltava para a verdadeira aventura da minha vida que é ser mãe.

Foto: Wladimir Togumi – @adventuremag
Foto: Wladimir Togumi – @adventuremag

 

Comentários Facebook

Disqus

advmag