Trail Run

Iazaldir Feitoza é vice na Tahoe Rim Trail 100 Milhas. Leia seu relato.

Todo final de temporada vem aquela pergunta o que farei no próximo ano, quais provas e lugares quero conhecer, será que terei tempo para treinar. Em determinados momentos até me questiono se ainda sou capaz de percorrer algumas distâncias em um nível de excelência satisfatório.

E foi com todos estes questionamentos que iniciou-se o processo de montagem para meu calendário desta temporada. Entre os critérios a serem definidos decidi que a prova-alvo deveria acontecer em pleno Verão e teria que ser nos EUA por ter o sonho de conquistar uma das tradicionais fivelas entregue aos atletas que completam provas de cem milhas naquele pais.

Foi uma árdua pesquisa, pois para correr provas de cem milhas você precisa ter um certo Handicap definido por sua participação em provas anteriores. Entre todos os requisitos A Tahoe Rim Trail Cem Milhas foi a prova que meu Handicap se encaixou.

Mas para entrar na prova não basta você ter o handicap solicitado, isso apenas te qualifica a entrar em um concorrido sorteio limitado a duzentos e quarenta vagas, pois as leis americanas limitam o numero de participantes em corridas de trilha em seus parques. E esse era o limite para as cem milhas da TAHOE.

O Sorteio

O sorteio acontece no último dia do ano, trinta e um de dezembro, e seu resultado é divulgado no dia primeiro de janeiro. Na verdade tinha até me esquecido que estava inscrito neste sorteio, só fui lembrado quando recebi um e-mail da organização com a confirmação que tinha sido sorteado.

A Preparação

A divulgação do sorteio já no inicio do ano ajudou a definir um bloco de treinamento de seis meses, onde defini que colocaria como provas treinos a TUTAN 100k em Agulhas Negras e a Maratona oficial do Rio. Como podem ver, uma prova de trail e uma prova de rua.

A escolha da TUTAN se definiu por ser no mês de abril, período perfeito para fazer uma prova de 100k, pois teria tempo para fazer alguns ajustes e acertos para as cem milhas em julho.

A escolha da Maratona do Rio se deu primeiramente pela necessidade de não se perder tanta velocidade com os treinos na montanha e manter um ótimo trabalho na melhora da utilização do VO2 durante a prova em TAHOE. Outro estimulo para a Maratona do Rio foi definir que correria a Maratona sub 3h o que me qualificaria para a Tradicional Maratona de Boston 2020.

Um dos pontos altos da preparação foi a criação de um jargão o “DEIXA DOER” jargão este que virou nosso grito de guerra.

A Prova

A prova tem sua largada em SPOONER LAKE e percorre as montanhas do famoso LAKE TAHOE no Estado de Nevada em uma das  trilhas mais icônicas, a TAHOE RIM TRAIL . Os atletas tem um limite de 35 horas para completar estas cem milhas com um total de 10.972m acumulados entre subida e descida.

Aclimatação

Cheguei a Carson City uma semana antes da prova para fazer um processo de aclimatação à altitude e temperatura. A prova é toda disputada acima de 2.000msnm e as temperaturas ficam em torno de 30ºC com 10% de umidade do ar, ou seja, um verdadeiro caldeirão.

O grande dia

Acordei às 2h da manhã, tomei um belo café da manhã com calma, me arrumei e saí para pegar o ônibus que nos levaria até a linha de largada. Esta caminhada até o ônibus durou algo de dez minutos e neste tempo pude perceber que estava me sentido descansado.

A largada aconteceu às 5h da manhã em Spooner Lake e estavam ali alinhados Bob Shebest, recordista do percurso; Chris Price, quarto colocado na tradicional Hark Rock 100 Miles; Ben Tedore, corredor local campeão da prova de cinquenta milhas ano passado; Bryce Murry; Dennis Boic; Madison Hart; Elan Lieber, campeão da KODIAK cem milhas dentre outros. Ou seja, nos EUA tem corredor bom demais.

Meu objetivo para esta prova era passar a primeira metade abaixo de dez horas de prova e estar entre os dez primeiros, para aí sim ser mais forte e manter o ritmo constante na segunda metade e finalizar entre os cinco primeiros.

O primeiro PC, HOBART, estava a sete milhas e minha estratégia era começar devagar para analisar  o terreno e os adversários, além de manter uma segurança para não ter nenhuma entorse durante o período sem luz natural.

Cheguei em HOBART entre os cinco primeiros, fiz uma pausa rápida e saí para TUNNEL CREEK, que estava cinco milhas a frente. Este PC funcionava como o centro da prova, pois ali passávamos seis vezes, sendo que a cada passagem íamos para uma diferente direção. Era preciso ficar atento para não tomar a direção errada. Neste local funcionava um dos pontos de DROP BAGS e foi neste ponto que deixei grande parte de todo meu material de apoio durante a prova.

Sai deste PC na terceira colocação em direção ao PC BULL WHELL e DIAMOND PEAK e a minha prioridade ao chegar nestes PCS era fazer uma hidratação e alimentação. Enquanto eu calmamente realizava as minhas necessidades, os corredores locais enchiam suas garrafas rapidamente e seguiam. Já sabia que os caras faziam isso, mas eu tinha a consciência que este estilo não era o meu, precisava manter minha estratégia e seguir em frente.

Ao chegar no PC de DIAMOND PEAK estava lado a lado com o cara que detém o Record da prova, BOB SHEBEST. Este PC estava a 2603msnm e chegaríamos a crista da pista de sky Crystal Ridge para uma subida de 518msnm em três quilômetros, onde atingiríamos o ponto mais alto do percurso a 3.118msnm.

Foi nesta subida de três quilômetros com quinhentos metros de ascensão que o diabo deu as caras pela primeira vez. Sentia como estivesse carregando toneladas nas minhas costas e ao mesmo tempo sentia como que se o diabo enfiasse seu tridente em meu quadríceps. Era uma dor incrível, lutava para suportar aqueles momentos, gritava de dor e acreditava que estava pronto para suportar aquilo tudo e que só precisava aguentar um pouco mais. E assim segui, até o momento de começar a descer em direção a TUNNEL CREEK.

Não foi um alivio. Minhas pernas estavam inchadas, eu estava inchado, meu quadríceps destruído tentava me intimidar, mas eu lutava bravamente. Minha cabeça era a única coisa que funcionava neste momento. No caminho de volta a TUNNEL CREEK passávamos por uma pequena parte de gelo que ainda restara e foi ali que fiz uma parada. Enchi as mãos com gelo e esfreguei em minhas pernas para aliviar aquelas dores.

Stonehenge 80K

Neste ponto fechei o primeiro loop de oitenta quilômetros na quinta colocação com 9:26:13h de prova, ou seja, dentro do que eu teria planejado. Fiz uma parada um pouco maior, me alimentei bem e sai para o segundo loop, pois sim a prova são cem milhas, sendo que duas voltas em percurso de oitenta quilômetros.

Agora sim a prova começou. Saí com este pensamento e gritando para o público presente. A subida até a milha 12 TUNNEL CREEK teve seu inicio desastroso, mas ao chegar na milha 7 da segunda volta alcancei o quarto colocado que se arrastava. Isso foi uma injeção de ânimo, pois não importa em qual situação você esteja, ultrapassar alguém e sempre contagiante.

Ao chegar em TUNNEL CREEK – agora pela quarta vez, sendo que esta era a primeira passagem neste PC da segunda volta – avistei BOB SHEBEST, que ocupava a terceira colocação e percebi que o cara não estava muito bem. Decidi fazer um breve refil e seguir em frente, agora eu já estava na terceira colocação e com a moral elevada.

Red House Looop

Este é um PC que não citei antes. Na primeira volta funciona como uma alça, tendo tendo três milhas e meia e retorna a TUNNEL CREEK. Pois bem, foi aqui que alcancei o segundo colocado BEN TEDORE. Conversamos um pouco e falei que precisava seguir em frente.

Diamond Peak II

O caminho até DIAMOND PEAK foi sob uma noite de lua cheia incrível e de pensamentos maravilhosos. Fiquei martelando na minha cabeça que a subida de duas milhas deste PC até a  crista da pista de Sky Crystal Ridge iria ser carregado pelo diabo e enfiaria as pontas de meus bastões em seu quadríceps. Desta vez foram algumas milhas martelando isso na minha cabeça e deu certo, fiz a segunda subida deste ponto melhor que da primeira vez, sorrindo, feliz e tirando sarro do diabo.

Snow Valley Peak

Outro PC que não citei na primeira passagem, mas o caminho até aqui era incrível e ainda mais com aquela noite de luar, que o tornava mais belo. Fui até este PC com a certeza que estava sendo perseguido por meus adversários, mas eu tinha a certeza que se chegasse neste ponto na segunda colocação não a perderia mais. Me encontrava em modo automático, pronto para DEIXAR DOER o quanto fosse preciso. Eu tinha sete milhas ladeira abaixo até a linha de chegada .

Sentei o sarrafo ladeira abaixo, me sentia leve e forte e acreditava que a qualquer momento poderia alcançar o primeiro colocado. Passava por cima de tudo; sentia a presença da MANU, minha filha de cinco anos, gritando no meu ouvido “não desista, você e forte” e ao mesmo tempo me lembrava dos primeiros passos da NINA, minha filha de onze meses, que foram dados dias antes da minha viagem.

As lágrimas começaram a escorrer e eu tentava dominar aquele sentimento. Ainda faltavam algumas milhas e começou a passar um filme na minha cabeça. Você se lembra o quanto a sua esposa foi companheira durante toda a preparação.

Enquanto sigo correndo e chorando feito criança de tanta felicidade avisto as luzes na base de SPOONER LAKE. A linha de chegada estava próxima e eu estava prestes a completar pela segunda vez uma prova de cem milhas. Estava no pódio! Top 3! Lembro de uma frase do meu amigo Marcinho que se recupera de uma cirurgia  “SÓ TEM PARA OS TRÊS PRIMEIROS”. Isso é demais, uma sensação incrível e única.

Ao cruzar a linha de chegada sou recepcionado pelo organizador da prova, senhor GEORGE RUIZ, e pelo campeão da prova, o americano CHRIS PRICE.

Obrigado a todos que acompanharam esta jornada, foi um caminho incrível. Quando estiver doendo “DEIXA DOER” e vai para cima pois a dor de desistir é maior que a dor que você sentirá até cruzar a linha de chegada.