Trail Run

Entrando numa fria – Ushuaia by UTMB

Conheci Ushuaia em 2008 e logo me encantei com esta bucólica cidade situada na Terra do Fogo  na Argentina, onde circuitos de trekking me atraíram até o local. O fim do mundo, como é chamada a cidade mais austral do mundo, presenteia o visitante com um cenário completo, o mar, as montanhas nevadas, os lagos e uma rica fauna, repleta de pinguins, baleias, lobos marinhos e uma grande diversidade de pássaros, um grande atrativo para qualquer trekker.

O local me fascinou tanto que em 2013, quando ainda nem pensava em correr, retornei ao fim do mundo de moto saindo de São Paulo e uma viagem que levou 55 dias e 15 mil quilômetros, onde revi tudo o que me fez apaixonar pela Patagônia argentina 5 anos antes. Naquela ocasião achei que encerrava meu ciclo patagônico ao chegar no ponto mais ao sul do continente e que não voltaria à Terra do Fogo tão cedo, mas naquela momento eu não imaginava que além trekking e do motociclismo eu iria correr em montanhas e que em 2019 o Ultra Trail du Mont-Blanc organizaria uma prova neste lugar fascinante, o Ushuaia by UTMB.

Assim que divulgada a prova já me encantei em percorrer o circuito de 130km, o FMU, seria um desafio imenso em uma região onde o clima é extremamente instável em que mesmo no verão temos variações de temperatura, chuvas, neve e muito vento. Comecei minha preparação no final de dezembro, porém me lesionei após um treino na Serra Fina, onde quebrei um dedo do pé, e me fiquei impossibilitado de correr por quase 45 dias. Diante deste fato optei por trocar a distância e ir para a prova mais curta, o ELT de 35km.

Cheguei em Ushuaia no dia 30 de março e o tempo estava bom, fazia frio mas havia pouco neve nos altos dos picos, aproveitei estes dias para descansar e turistas um pouco com amigos que também correriam a prova. No dia 4 de abril retirei o kit e fiz o check-in de equipamentos, tudo com uma organização impecável, o kit além da tradicional camiseta continha um lindo fleece da patrocinadora do Ushuaia by UTMB.

Junto com Cal Nogueira, Fabi Perderzoli e Sidney Togumi

Porém quando falamos de Patagônia nem sempre tudo dá certo, o clima que estava estável começou a mudar, chovia bastante e nos pontos mais altos já havia neve e a temperatura caiu consideravelmente. Já havia rumores que a prova poderia mudar o percurso ou mesmo ser reduzida ou cancelada. Bem estes rumores se confirmaram às vésperas da prova, a organização de forma transparente trocou parte do percurso das provas de 50, 70 e 130km, devido a péssima condição climática que pairava sobre Ushuaia, retiraram um paso de montanha destas provas que reduziu um pouco a altimetria e mudou alguns poucos quilômetros, o que foi tudo explicado nos briefings técnicos e divulgado nas redes sociais. Neste momento comecei a “comemorar” por ter trocado de distância, o clima severo poderia me tirar da prova de 130km.

Chegado o grande dia, com todo material preparado, tomei o ônibus da organização para o local da largada ainda na madrugada com muito frio, os termômetros marcavam 3º ao nível do mar. Chegamos ao local da largada que era um pouco mais alto (cerca de 200m acima do nível do mar) e caía muita neve e fazia mais frio ainda e as 6h30 minutos do dia 6 de abril, debaixo de muita neve e temperaturas negativas, larguei para os 35km do ELT Ushuaia by UTMB.

A neve castigava desde o início da corrida

No início da corrida foi necessário utilizar headlamp, pois o sol nasce apenas depois das 8 da manhã na região durante esta época do ano, correr com neve e no escuro já era desafiador, mas logo entramos num trecho de charco e lama com algumas subidas, assim que o dia clareou tive noção da nevasca e do universo gelado que eu estava me metendo, ficar parado não era uma opção e o frio me fazia correr. A trilha seguiu por cerca de 10 km  até o primeiro posto de controle e de hidratação, optei por não parar e apenas marquei minha passagem e continue a corrida que prosseguiu por uma estrada até o início da subida do Cerro del Médio, o ponto mais alto, frio e gelada da prova.

Subida ao Cerro del Medio era fustigada por forte nevasca

A subida íngrime se iniciou em um bosque com single track e cheio de neve, onde era fácil seguir a trilha. Ao fim desse bosque um cenário cinematográfico começou a fazer parte da prova, a vegetação agora inexistente deu lugar a um mar de gelo e neve, a trilha somente era marcada por estacas e segui ponto a ponto pisando na neve que por vezes afundava até o joelho, fazia muito frio, a neve incessante acumulava no corpo e o vento enfurecido quase me jogava ao chão, nunca havia enfrentado tais condições climáticas e confesso que fiquei assustado e ao mesmo tempo fascinado com a força da mãe natureza, porém continuava apoiado em meus bastões passo a passo até o cume.

No alto do Cerro del Médio

Após alcançado o cume uma tarefa mais árdua se iniciou, descer a íngrime encosta em que a neve compactada virou um verdadeiro tobagã. Alguns argentinos acostumados com essas condições desciam com maestria e destreza, porém eu tinha muita dificuldades em ficar em pé e descia quase todo o percursos num verdadeiro skibunda. Neste momento me arrependi de ter corrido de bermudas, pois ao escorregar na neve ela subia e tinha contato direto com o gelo nas pernas. Apesar da grande dificuldade este trecho foi muito divertido. 

Superada esta parte agora era correr até a meta, mais um trecho de single track e chegamos no asfalto, já distante cerca de 5km da linha de chegada, corri o mais rápido que pude e cruzei a linha de chegada com 5h01, fechando a prova na 73º colocação.

Correr em condições tão adversas foi muito impressionante, a neve que caiu incessantemente do início até quase o último quilômetro da prova foi ao mesmo tempo fascinante e assustador, elevando muito o grau de dificuldade técnica da corrida. A presença de grandes corredores e amigos do Brasil e do mundo elevou o nível da corrida e a hospitalidade do povo fueguino tornou mais que especial esta prova. O Ushuaia by UTMB de fato se tornou uma das minhas provas preferidas até hoje. Que venham as próximas.

Atletas brasileiro com a CEO do UTMB Catherine Poletti

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