Trail Run

Feio é não tentar!

Por Ana Augusto Brito

No último dia 13/7/18 parti às 22:00 horas para a difícil aventura nos 105 km da Ultra Skymarathon dos Perdidos, em Tijucas do Sul, Curitiba, local de montanhas de grande altitude no Brasil.

Começo destacando a qualidade do balizamento e dos staffs, estes em sua grande maioria sabedores do nível de dificuldade da prova e da importância quanto ao apoio e incentivos aos atletas. Os Aid-Stations estavam bem preparados e dentre as comidinhas quentes destaco um purê de batatas maravilhoso que nos foi servido.

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Eu larguei segura, concentrada, mas com a ansiedade natural de quem está comprometida com uma ultramaratona desse porte. Eu sabia que não seria fácil. Eu não senti medo em momento algum, pois eu tinha em mente o que eu queria: cruzar a linha de chegada. Mas eu sabia que teria que superar a mim mesma e superar prováveis problemas no pé esquerdo.

No trecho da subida do Morro dos Perdidos, cuja altimetria ultrapassa os 1400 metros, comecei a sentir dores na musculatura posterior do lado esquerdo. Eu já não sentia frio, então me desequipei um pouco e imprimi uma alternância entre trekking rápido com corrida com passada curta. Mas as dificuldades foram aumentando e não conseguia mais correr, apenas andar devido o desnível presente. A vontade mental de correr não fazia meu corpo imprimir o ritmo por mim desejado. Passei a ficar preocupada com o primeiro corte, previsto para o km 59.

Após chegar no cume do Morro dos Perdidos peguei uma trilha linda e passei a correr o mais rápido que consegui. Encontrei uma atleta retornando e que me disse, aos prantos, que estava desistindo. Ofereci ajuda. Ela me disse: “Obrigada , florzinha, mas eu estou desistindo da prova”.

Certa do meu objetivo, voltei a correr. Nas descidas o vento gelado contornava meu rosto revelando sua força.

Ao chegar no Aid 4, local do primeiro corte, perguntei imediatamente que horas eu deveria estar ali. “Onze e trinta” – me responderam. “Mas são 8:30 e você está muito bem”. Saí rapidamente dali pois tinha em mente que a parte mais dura ainda estava por vir. Eu passei por estradas, riachos, trilhas e escalaminhadas, tudo muito bem sinalizado e guardado por staffs atentos e receptivos.

Ao chegar no Aid 4, local de acesso ao drop bag, resolvi trocar a meia porque a minha estava molhada e com lama. Vi então o estado dos meus dedos os quais davam sentido aos incômodos que eu estava sentindo. Me abasteci de suplementos e água. Comi o que descia, pois eu não estava conseguindo comer sólidos. Segui adiante com os incômodos nos dedos agora adjetivados como dores. E meu corpo já sentia a quilometragem já percorrida.

No próximo Posto de Controle, na base de acesso à subida inicial para o cume do Araçatuba, eu não lembrava da alça de 18 km que eu teria que fazer antes de subir para aquele cume (o do Araçatuba). Peguei o primeiro picote. Uma staff ressaltou quanto ao tempo que eu teria para rodar aqueles 18 km. Ela afirmou que era um “bate e volta” de 9 mais 9 km. Me disse que era muito difícil e que se eu não estivesse ali até 14:30, eu estaria cortada.

Como psicanalista há mais de 20 anos entendo o que traz a modulação da voz. Portanto não foi bom o que ouvi, porque foi veiculado naquela fala que dificilmente eu iria conseguir estar de volta antes do segundo corte. Eu perguntei por onde tinha que seguir e parti.

Ao longo do percurso encontrei com três atletas masculinos e lhes perguntei se faltava muito. As respostas invariavelmente foram atreladas a expressões faciais de desgaste. Todos me disseram que era “chato”, “trash”, “difícil”. Era muita subida, muita mesmo. Eu pensava que seria muito difícil eu passar do corte, pois não dava pra correr e eu tinha pouco tempo. Então entrei num inferno pessoal e não foi nada bom. O fracasso me rondava. Passei a pensar várias coisas: sobre o que eu tinha feito de errado, sobre o que eu havia deixado de fazer, sobre o que eu iria dizer para as pessoas que estavam torcendo por mim.

Lembrei da prova que tive que interromper por conta de minhas unhas. Eu não queria viver aquilo de novo, mas estava muito difícil. Meus pés doíam demais e eu não conseguia correr nas subidas, apenas nas descidas as quais eram poucas naquela ascensão. Como eu achava que era um “bate e volta”, eu dizia para mim mesma: “na volta vou correr aqui”.

Minada pela possibilidade do fracasso comecei a chorar. Daí resolvi rezar. Sim, rezar. Me dirigi humildemente a Jesus, é isso mesmo, o barbudo lá de cima e pedi ajuda. Conversando com Ele eu disse que eu precisava de um milagre. Por que só com um milagre eu iria conseguir não cair no corte. Mas como eu não sabia se iria ser atendida, eu pensei comigo mesma, e com as minhas dores, que eu iria correr o mais que eu pudesse, porque mesmo que eu caísse no corte, e fosse retirada da prova, eu queria correr o máximo de quilômetros que me fosse possível. Retornei a Jesus e assumi meu desejo de cruzar a linha de chegada. E reiterei minha necessidade de um milagre, posto que eu estava no jângal.

Rezei. E em seguida vi a minha direita uns metros de Bougari , a flor favorita de minha falecida Vó Maria Augusta. Então eu falei: “ô Vó! Tu está aqui comigo! E lembrei de Dona Maria das Oliveiras.

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Cheguei no final da subida sem fim e os staffs não mais estavam lá. Como que de repente surge um corredor e me diz que eles deveriam ter ido embora, mas que estávamos no caminho certo. Eu falei: “então não é um ‘bate e volta?'”. Ele me disse que era uma alça. Falou que estava sentindo dores nos posteriores dele. Me contou que seu reservatório de água havia furado no início da prova e que tinha pedido uma garrafa d’água a uma staff e que ela havia lhe negado, dizendo-lhe que lhe daria meia garrafa só! Mas que no ponto seguinte uma outra staff , sem pestanejar, lhe deu uma garrafa inteira.

Estávamos andando rápido. E ele me disse que “não era pra ser”, que a prova havia acabado pra ele. Nesse momento ele estava na minha frente. Eu estava sem água. Vi a tal garrafa pet na mochila. Pedi um gole. Havia uns quatro dedos d’água na garrafa, a qual ele dividiu comigo. Passei à frente dele e ele me disse que já havíamos percorrido 12 dos 18 quilômetros da alça.

Olhei pro relógio. Eu tinha 1 hora e 30 minutos para tentar chegar; e era descida. Disse a mim mesma que feio é não tentar. E entendi a presença daquele rapaz ali comigo. Entendi principalmente que, para que acontecesse um milagre, eu não deveria esquecer a minha própria parte, ainda que eu estivesse lidando com o impossível.

Então, com os pés ferrados corri, corri muito, ladeada por uma borboletinha branca à minha esquerda, por uma menorzinha preta com amarelo à minha direita e por outra um pouco maior à minha frente – bem à minha frente – todas ali como minhas batedoras. Daí entendi o que estava acontecendo e sorri para as borboletas, como se elas olhassem para mim, e disse para a que estava na minha frente que eu estava entendendo, que era pra eu correr tal qual elas voavam.

Imersa nessa magia fui conduzida até um gramado lindo e logo em seguida vi a seta que dava pro Aid 6. Eu tinha que chegar lá até as 14:30, conforme me fora dito pela galêga. Eu cheguei às 13:55!!!! Fui até ela e lhe disse: “me dá o meu picote!” Em seguida ela saiu num carro, encerrando a história dela comigo. Me sentei e chorei. Todos os rapazes ali presentes ficaram ao meu redor me oferecendo ajuda: sopa, água, refrigerante, reposição de água e suplementos, checagem dos equipamentos. Saí dali dizendo que ia mijar no mato.

Parti pro cume do Araçatuba, quase a 1700 de altitude. Sentia as bolhas nos dedos, o trauma na unha do dedão esquerdo. A dor, como minha companheira, estava definitivamente presente. Há que respeitá-la, mas ela precisa saber que manda ali. Ou seja, um duelo.

Na descida do Araçatuba encontrei com o corredor Ambrósio, pessoa muito generosa e passei a ter companhia até a chegada. Atrás de nós havia uma atleta e o “fecha-fila”, que estava adiantado, tendo em vista o pace médio disposto no regulamento da prova.

Enganou-se quem pensou que não haveria dificuldade após Araçatuba. Encontrei lama até o joelho, raízes, troncos, riachos, subidas, muitas subidas até atingirmos uma estrada. Feito dois vagalumes, Ambrósio e eu saímos da mata ouvindo ao longe a vibração dos maravilhosos desconhecidos que se alegravam por nós.

Ambrósio me diz: “vamos trotar? Vamos chegar bonitos? Minha resposta veio no corpo trotando e lhe agradecendo o cuidado nos quilômetros finais que tivemos um com o outro.

Fui recepcionada por meu marido Fabio Lucchezi, que já havia terminado a prova e cheio de orgulho e amor me esperava.

Dessa prova fica a experiência, a superação, a fé, a consciência de que a minha dificuldade é nada diante da dificuldade que outras pessoas passam.

Conclui a prova em 21 horas e 10 minutos, sétima colocada dentre as mulheres e primeira colocada na minha categoria. Sou uma mulher de 51 anos.

Me sinto grata a muita gente, desde meu treinador Weliton Carius, meu marido Fábio (parceiro em tudo e orientador na musculação), a Camelbak, a Tribus, a Flow, a Málama (recovery), a Cristina (alongamento), ao Mauricio (meu professor de ioga), aos meus amigos da Camelbak, a Cris Jorge especialmente pela ajuda final, a Júlia Engels e Erika Santinoni, nutricionistas que me orientaram em momentos distintos, dentre outros.

Agradeço a meus filhos, Lucas e Enzo. Vocês estão sempre comigo. Mamãe tentou e conseguiu!
Agradeço a Deus por ter me ajudado e por eu ter entendido todos os Seus sinais.
Dedico essa prova a Sra Edna Jorge, por sua vida, por seu legado, por seus filhos.
Feio é não tentar. Eu tentei. Eu consegui!

Ana Augusto Brito

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