Análise dos Métodos de Treino para Corridas de Aventura

Pontifícia Universidade Católica do Paraná

RESUMO
A busca por novas descobertas e lugares novos é uma constante na história da humanidade, e a palavra aventura pode ser considerada como um resumo dessa necessidade. Em 1989 foi criado o conceito de corridas de aventura, que nada mais é do que a expressão dessa necessidade em forma de competição. Sendo essa uma modalidade bastante nova, uma das dificuldades que os atletas encontram é justamente fazer um treino específico para esse esporte.

Contudo, em uma atividade com tantas disciplinas e variáveis em geral, é necessário um treino bem direcionado de forma a suprir todas as necessidades da mesma. O presente estudo é uma pesquisa comparativa e descritiva, que utilizou um questionário com perguntas abertas e fechadas como instrumento de pesquisa. A amostra foi composta de dezessete atletas da elite nacional. O objetivo desse trabalho é a construção de subsídios que auxiliem no aprimoramento da metodologia, e das técnicas utilizadas no treinamento desse esporte.

Analisando os métodos de treino dos principais atletas brasileiros de corrida de aventura, formamos uma lista de pontos relevantes no que diz respeito ao treinamento desses atletas. Descobrimos que 65% dos atletas da elite nacional têm menos que 30 anos de idade, e 70% são do sexo masculino. Menos de 60% desses atletas têm seus treinos organizados por um treinador formado em Educação Física. Além disso, 65% utilizam treinos resistidos com peso em sua preparação, e 88,2% utilizam alguma forma de suplementação alimentar. Com esses, e outros, pontos descobertos, podemos aprimorar a metodologia de treino utilizada nesse esporte.

Palavras-chave: aventura; corrida de aventura; treino específico; métodos de treino; capacidades físicas.

Introdução
As corridas de aventura fazem o homem voltar à suas origens, despertando o instinto desbravador, explorador e aventureiro no homem moderno. Apesar disso, esse é um esporte um tanto quanto recente, tanto no Brasil como no resto do mundo. Porém, quando comparado a outros países como Nova Zelândia e França, o Brasil tem ainda menos tradição, sendo que a primeira prova brasileira aconteceu em 1998.

Dessa forma, os métodos de treinamento utilizados pelos atletas brasileiros de corridas de aventura não estão plenamente desenvolvidos. Pelo contrário, como muitos atletas vêm de outros esportes, eles acabam utilizando os métodos de treino de seus esportes de origem. É muito comum encontrarmos ex-triatletas, ex-ciclistas, ex-canoístas e outros, correndo provas de aventura, e uma vez que eles não sabem como fazer um treino específico para as corridas de aventura continuam treinando da forma que eram acostumados a treinar. Assim, o objetivo principal desse trabalho é analisar os métodos de treinamento utilizados por atletas de corridas de aventura, propondo algumas mudanças para melhorá-los e deixá-los mais específicos para o esporte em questão, assim como criar subsídios para a elaboração de novas metodologias de treino.

Para tal, a execução desse trabalho partiu praticamente da estaca zero, pois no Brasil existem poucas publicações acadêmicas a respeito do assunto. Contudo, existem sites da internet especializados no assunto. Além disso, existem publicações neozelandesas e americanas que se aprofundam nos mais diversos campos das corridas de aventura, dentre eles os métodos de treino. Também foram entrevistados alguns dos melhores corredores de aventura do Brasil. Suas entrevistas foram analisadas a fim de se isolar os métodos mais eficientes utilizados hoje em dia.

Outro aspecto importante para entender os métodos utilizados por corredores de aventura é o aspecto histórico das corridas. Ao longo dos anos as corridas vêm assumindo diferentes características e os treinos têm que se adaptar a essas mudanças. Nesse ponto, é muito importante o entendimento das regras pertinentes aos vários tipos de corridas de aventura.

 

Referencial Teórico
As origens das corridas de aventura estão ligadas às corridas multi-esportivas (corrida em montanha, canoagem e mountain biking) realizadas na Nova Zelândia. Steve Gurney, neozelandês e um dos atletas que mais participou desse esporte, já competia em corridas malucas multi-esportivas na sua terra natal em meados dos anos 70: “Eu me lembro de caminhar montanha acima, esquiar morro abaixo, e então remar por horas para ganhar uma cerveja como premiação. Era bem divertido”, dizia ele (CALDWELL; SIFF, 2001).

Em 1989 foi criado o Raid Gauloises. Realizado pela primeira vez na Nova Zelândia, essa foi a primeira prova no formato das corridas de aventuras atuais, ou seja, equipes mistas (integrantes dos dois sexos) tinham que largar e terminar a prova como uma unidade. Criado por Gerard Fusil, o Raid rapidamente popularizou as corridas de aventura na Europa (principalmente na França, país de Fusil), Austrália e Nova Zelândia. Para muitos o evento foi visto como o maior teste da resistência humana. Além disso, nos anos seguintes o Raid Gauloises passou por locações diferentes em todo o mundo, sempre com um percurso muito longo e desafiador.

As corridas e aventura chegaram ao Brasil através do empresário Alexandre Freitas, que ao participar de uma corrida de aventura na Nova Zelândia, ficou tão envolvido com o que vivenciou que resolveu implantar em nosso país (TOGUMI, 2002). Nasceu assim a Sociedade Brasileira de Corridas de Aventura, que é a organizadora da mais tradicional prova brasileira, a Expedição Mata Atlântica (EMA).

A definição clássica diz que as corridas de aventura são eventos multi-disciplinares, com vários dias de duração, sem paradas obrigatórias, disputado por equipes auto-suficientes em um ambiente selvagem. Em alguns casos pode ser chamada de uma expedição com horário limite. O objetivo das equipes é o de ser o primeiro time completo a cruzar a linha de chegada. Normalmente as equipes devem ser mistas, formadas por competidores masculinos e femininos. O número de integrantes em cada equipe varia de acordo com a prova, no entanto na maioria das provas as equipes são formadas por quatro integrantes que devem permanecer juntos o tempo inteiro (CALDWELL; SIFF, 2001).

Podemos dividir as corridas de aventura em quatro tipos de acordo com a duração e formato da mesma:

• Corridas de curta duração: o tempo do vencedor varia de duas a dez horas e pode incluir as categorias equipe e individual.
• Corridas de fim de semana (médias): o tempo da equipe vencedora fica entre doze e trinta horas e o percurso tem entre 70 e 220 km.
• Corridas de expedição (longas): a equipe vencedora leva de três dias a duas semanas para completar a prova e o percurso varia entre 300 e 1000 km.
• Corridas de estágios: dura de dois a cinco dias e as equipes devem parar no final de cada dia, ou após certa etapa ter sido completada. O vencedor é a equipe que tiver o menor tempo acumulado nas etapas.

Uma corrida de aventura envolve uma grande variedade de disciplinas ou modalidades. As disciplinas mais comuns são a orientação, trekking, mountain biking, natação, canoagem (em diversas embarcações) e técnicas verticais (rappel, escalada, tirolesa, etc.). Essas disciplinas são encontradas em todos os tipos de prova, no entanto outras disciplinas já foram incluídas, principalmente nas corridas de média e longa duração. Dentre elas podemos citar o patim in-line, pára-quedismo, esqui na neve, vela, corrida em camelos, costeira, canyoneering, rafting, exploração de cavernas (caving), cavalgada, etc. (MANN; SCHAAD, 2001).

Ian Adamson, um dos melhores corredores de aventura do mundo, costuma dizer, “Para ser um bom corredor de aventura, você precisa ser um bom generalista”. Em outras palavras isso quer dizer que habilidade em apenas uma modalidade não é suficiente. Não adianta ser um ciclista de nível olímpico, se o atleta não conseguir remar um caiaque de modo satisfatório. Ele vai gastar muito tempo remando, vai fadigar, e pode ficar hipotérmico por permanecer muito tempo na água fria. Ser bom em uma modalidade em particular pode ajudar, mas não vai fazer alguém ganhar uma prova, porém não ser hábil suficiente em uma modalidade vai fazer com que o atleta perca a prova.

O condicionamento físico de um corredor de aventura deve ser mais voltado para a robustez. O atleta deve ser capaz de permanecer correndo durante 24h ou até nove ou dez dias. Deve ser capaz de progredir rapidamente, e sem parar, através de terrenos acidentados (PATERSON, 1999).

Porém, na maioria das modalidades esportivas, quando pensamos nas capacidades evidenciadas para a prática da mesma, logo pensamos nas capacidades físicas para tal. Força, velocidade, agilidade e resistência são algumas das capacidades físicas mais lembradas. No entanto quando falamos sobre corridas de aventura não podemos nos fixar nas capacidades físicas. Em uma corrida de aventura existem muito mais variáveis do que se imagina para se alcançar um bom resultado.

Além de um físico bem treinado e uma boa técnica das modalidades envolvidas, o atleta precisa ser psicologicamente forte e equilibrado para suportar e saber lidar com adversidades trazidas pela natureza. Muitas vezes o risco de um acidente é inerente, e o fator psicológico permite o equilíbrio emocional necessário para que o atleta saia de uma situação de risco (muitas vezes risco de vida). Outra capacidade crucial que os atletas devem ter nas corridas de aventura é a capacidade de programar como será a sua prova. Uma vez que cada prova é completamente diferente da outra, a estratégia e a logística ganham enorme importância. Por último, mas não menos importante está a capacidade de integração da equipe. Sendo esse um esporte disputado por equipes, e, além disso, onde o componente psicológico está sendo sempre levado ao extremo, a capacidade dos atletas de trabalhar em equipe e a integração da mesma são fundamentais.

Chegamos então a cinco componentes principais que devem ser considerados na elaboração de um treino para corredores de aventura. São eles: o físico, o técnico, o psicológico, o tático, e o componente que diz respeito ao entrosamento da equipe, o qual chamaremos de componente de convivência social, ou simplesmente componente social. A ordem de importância desses componentes não é fixa, ela pode variar dependendo da duração da prova.

No que diz respeito às necessidades energéticas, as atividades envolvidas em uma corrida de aventura também são muito diferentes. Porém as longas distâncias que são percorridas requerem um fluxo contínuo de energia durante um longo período de tempo. Portanto, a grande maioria do trabalho realizado durante uma prova desse tipo requer um abastecimento aeróbico. Existirão horas, no entanto, em que será necessário dar um sprint , ou executar curtas explosões de grande intensidade que necessitam de um rápido acesso a um grande volume de energia (MANN; SCHAAD, 2001). Contudo, dentre todas as capacidades físicas envolvidas em uma corrida de aventura, podemos dizer que a mais importante é, sem dúvida alguma, a resistência física. Sob resistência compreende-se em geral a capacidade psicofísica do esportista resistir à fadiga. Já resistência física é a capacidade do organismo como um todo, bem como de cada sistema parcial, de resistir a fadiga. Porém, existem diversas manifestações da resistência (geral e local, geral e específica, aeróbia e anaeróbia, etc.), (WEINECK, 2000), e cada uma dessas manifestações tem maior ou menor importância para as corridas de aventura.

O componente técnico de uma corrida de aventura pode variar de acordo com as modalidades que se encontram na mesma. De uma maneira geral, a maioria dos autores sobre o assunto coloca que se deve treinar a técnica das modalidades chamadas de modalidades padrão, ou seja, aquelas que se encontram na maioria das corridas. Praticamente todos os livro sobre corridas de aventura falam dessas modalidades: navegação, trekking, mountain biking, canoagem, e técnicas verticais. Um bom corredor de aventuras deve pelo menos dominar a técnica dessas modalidades consideradas padrão. O treino dessas técnicas deve estar incluído na periodização do treinamento do atleta. O emprego de técnica correta em determinada modalidade pode fazer com que o atleta poupe energia e tenha um rendimento muito melhor do que outro que não domine as técnicas da mesma. Outras modalidades mais específicas devem ser treinadas de acordo com as competições nas quais a equipe vai participar.

Não há dúvidas que o sucesso nas corridas de aventura é uma combinação de força mental, concentração, e vontade, em conjunto com as habilidades de cada modalidade e uma capacidade de resistência física à fadiga muito grande. No entanto, muitos consideram a capacidade psicológica do atleta como o componente mais importante para se alcançar um bom resultado nas corridas de aventura.

Acreditar em sua capacidade de ir além do que se pensa possível, ter a atitude correta no momento correto, e se manter concentrado durante toda a prova são premissas que os melhores atletas tentam buscar durante uma prova (CALDWELL; SIFF, 2001). Talvez um dos aspectos mais profundos de uma corrida de aventura seja o desconforto. Quando se está competindo, principalmente por mais de uma noite, o nível de desconforto aumenta de forma exponencial. A sujeira e o suor fazem um monte de terra parecer o melhor travesseiro no qual se pode encostar a cabeça para uma rápida soneca. As usuais oito horas de sono por dia se transformam em menos de uma ou duas horas. Além disso, não se pode parar para comer. É necessário constantemente comer correndo, pedalando, ou remando. Muitas vezes os atletas ficam 24 horas ou mais molhados e sem poder trocar de roupas. Os pés ficam extremamente doloridos, pois absorvem a carga de dias de esforço contínuo.

Em resumo, a vida se transforma em uma seqüência de atitudes para sobreviver com o intuito de se locomover o mais rápido possível. O quão longe se pode ir com um nível tão intenso de desconforto? Dessa forma os atletas que se sairão melhor serão aqueles que tiverem maior tolerância à dor e ao desconforto (MANN; SCHAAD, 2001). A melhor maneira de se aumentar a tolerância ao desconforto é treinando em condições reais de prova, ou seja, desconfortáveis. Não adianta treinar apenas em dias ensolarados ou em condições climáticas favoráveis, pois nem sempre se encontra essas condições durante as corridas. Um bom treinamento psicológico é esperar aquele dia chuvoso, frio e com muito vento, e sair para treinar ao ar livre. Longos treinos de bicicleta, trekking, canoagem, ou até uma combinação de modalidades nessas condições vão preparar o atleta para quando encontrar essas condições (que não são raras) durante as corridas (CALDWELL; SIFF, 2001).

Pode-se dizer que o componente tático é muito mais difícil de ser treinado do que os outros. As equipes com boa tática normalmente são as equipes mais experientes. Portanto o aperfeiçoamento da tática adquire-se com a experiência. No entanto, existem algumas situações que certamente acontecerão nas corridas, e quanto mais conhecimento das táticas utilizadas nessas situações, mais poderemos treinar as técnicas necessárias para utilizá-las. As táticas de prova são inúmeras, e seria impossível descreve-las todas. A única coisa que é certa é que o componente tático é desenvolvido com a experiência da equipe.

A corrida de aventura é um esporte disputado por equipes. A largada é feita em equipes, cada PC é atingido em equipe, e da mesma forma a meta final deve ser atingida com a equipe formando uma unidade. Uma das causas que mais tiram equipes de corridas de aventura é a falta de coordenação nas dinâmicas da equipe (MANN; SCHAAD, 2001). A raça humana é uma espécie única, nós possuímos uma enorme gama de emoções, muitas das quais são extremamente frágeis. Nós podemos ter personalidades fortes que requerem um alto grau de afirmação para assegurar uma existência adequada. Ou então, nós podemos ter personalidades facilmente adaptáveis (que se encaixam bem para corredores de aventura).

Por essa razão, é importante treinar freqüentemente em equipe, se colocando em situações desafiadoras, e assim conhecendo os pontos fortes e fracos, física e mentalmente, de cada integrante da equipe. Além disso, para que uma equipe tenha um bom entrosamento, trabalhando em pró de um objetivo comum, é preciso que todos os integrantes tenham o mesmo objetivo (MANN; SCHAAD, 2001). Assim como uma corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco, uma equipe é tão veloz quanto o seu integrante mais lento.

Materiais e Métodos
A pesquisa realizada nesse trabalho é comparativa e descritiva. Comparativa porque compara os métodos de treino utilizados pelos atletas, e descritiva porque descreve e questiona quanto aos treinos realizados (MARCONI, 2001).

A fim de se medir com maior exatidão o estudo proposto (CERVO, 1996), o instrumento de coleta de dados utilizados foi um questionário. O questionário deste trabalho foi composto por perguntas abertas, fechadas e de múltipla escolha. Após ser validado por professores acadêmicos ligados à área do treinamento desportivo, o questionário foi enviado via internet para os atletas, juntamente com uma carta explicando a natureza da pesquisa.

A amostra foi composta de atletas da elite das corridas de aventura do Brasil. O questionário foi enviado para as dez primeiras equipes do Circuito Brasileiro de Corridas de Aventura de 2002. Como cada equipe tem quatro integrantes o questionário teve uma abrangência de quarenta indivíduos, mas apesar disso obtivemos apenas dezessete respostas. No entanto, em média, os questionários expedidos pelo pesquisador alcançam 25% de devolução (MARCONI, 1999), e esse obteve 42,5% de devolução, o que aumenta a credibilidade da pesquisa.

Foram utilizadas basicamente duas formas de tratamento de dados. Tanto dos dados obtidos através dos questionários e da pesquisa propriamente dita, quanto dos dados retirados de pesquisas bibliográficas no referencial teórico. O mais utilizado foi o percentil, porém também se fez uso algumas vezes da média aritmética.

Resultados e Discussões
A corrida de aventura é um esporte no qual atletas de várias faixas etárias podem ter uma performance competitiva. Nas grandes provas internacionais, até o ano 2000, esse esporte era dominado principalmente por atletas com pelo menos 30 anos de idade. Porém, a partir de 2001 muitas equipes com atletas jovens também começaram a se destacar. A partir dos questionários nota-se que grande parte dos atletas de elite do Brasil nesse esporte estão em uma faixa etária mais baixa do que se pensava. Historicamente, em provas internacionais os atletas mais experientes se sobressaem, porém nesse caso não foi comprovada a hipótese que relaciona a experiência à maior resistência e bom desempenho. Outro ponto interessante desse gráfico é a questão do sexo dos atletas. Apesar da maioria dos atletas de ponta serem do sexo masculino, sabe-se da existência de equipes muito fortes predominantemente femininas, o que prova que esse é um esporte para todos, tanto no que se refere à idade, quanto ao que diz respeito ao sexo do atleta.

Também se pôde concluir que esse é um esporte praticado por uma classe social privilegiada. Porém, ainda é muito difícil sobreviver do esporte, o que faz com que alguns destes indivíduos precisem ter outras atividades. Através dos questionários notou-se que menos de 25% dos atletas entrevistados são profissionais (essa taxa é relativa aos atletas de elite das corridas de aventura, se formos analisar no geral a taxa seria muito menor). Isso faz com que a periodicidade dos treinos e a duração das sessões, sejam afetadas, pois se todos os atletas fossem profissionais e não precisassem dividir seu tempo de treino com outras tarefas, certamente o tempo e a periodicidade das sessões de treino seria outro. Portanto, para elevar o nível de nossos atletas, é preciso que os mesmos tenham o apoio de empresários que patrocinem o esporte. Também é necessário o apoio do governo ao esporte de um modo geral, fazendo leis que incentivem a iniciativa privada a apoiar os atletas brasileiros.

Quanto à organização do treino, a maioria dos atletas (58,8%) revelou que têm seus treinos organizados por treinadores formados em Educação Física. Por um lado isso é muito bom para nós profissionais dessa área, no entanto esse número ainda pode ser aumentado, de forma que esse é um mercado promissor para treinadores e preparadores físicos.

Outra maneira de elevar ainda mais o nível da preparação dos atletas seria com uma maior participação de profissionais de outras áreas ligadas ao treinamento dos atletas. Revelou-se nas respostas uma baixa utilização de outros profissionais que poderiam auxiliar no treino além de professores de Educação Física. Fisioterapeutas, médicos, nutricionistas e outros, são muito importantes para o melhor desenvolvimento do atleta.

Quando relacionamos algumas das respostas obtidas nos questionários, percebemos algumas informações contraditórias. Apesar de apenas pouco mais de 30% dos atletas serem auxiliados por nutricionistas, percebe-se que mais de 85% deles utilizam suplementação alimentar. Outro ponto contraditório mostra que apenas cerca de 40% dos atletas fazem algum tipo de controle de treino, porém mais de 75% deles são auxiliados por profissionais de Educação Física. Esse tipo de informação nos mostra um certo “amadorismo” no que diz respeito à preparação dos atletas em geral. Outro ponto um tanto quanto inesperado, é que em um esporte com um risco tão elevado de ocorrer lesões, não se dê a devida importância para a recuperação pós-prova.

Quanto à preparação física dos atletas estudados colocamos dois pontos principais: o desenvolvimento das capacidades aeróbicas, e o desenvolvimento de força e velocidade. Para o primeiro ponto os treinos longos e contínuos das modalidades básicas (ciclismo, corrida, natação, e alguns canoagem) são realizados por praticamente 100% dos entrevistados. Além disso, também são utilizados por alguns atletas (cerca de 40%) os treinos intervalados alternadamente com os contínuos. Uma minoria ainda utiliza tiros de longa distância em seu treinamento. No segundo ponto foram citados três tipos principais de treino: a musculação (65%), treinos intervalados de curta duração (tiros) em diversas modalidades (40%), e treinos das modalidades básicas com um acréscimo de carga como corrida na areia, ciclismo em ladeira, etc. (30%).

 

Considerações Finais
Organizar o treino de um atleta de corridas de aventura, como pôde ser visto, não é uma missão das mais simples. O grande número de fatores envolvidos nesse esporte deixa essa tarefa extremamente complexa. Devido a essa alta complexidade, a grande maioria dos atletas prioriza alguns componentes do treino que acham mais importantes, deixando muitas vezes de lado outros componentes fundamentais para o bom preparo do atleta. Notadamente, o componente mais priorizado é o físico seguido pelo técnico. Porém componentes importantes como o tático e o psicológico são muitas vezes esquecidos. Além disso, nem sempre o componente físico é trabalhado de forma completa e/ou adequada.

Depois de analisar os resultados obtidos com a pesquisa efetuada nesse trabalho, observa-se que muito do que está sendo usado pelas equipes de ponta pode ser incluído em um “treinamento ideal”. Afinal de contas, se essas são as melhores equipes do Brasil, deve-se ter um motivo para tal. Contudo, se acrescentássemos o treinamento dos outros componentes esquecidos, o nível das equipes brasileiras se aproximaria das melhores do mundo. Mais uma vez colocamos aqui a proposta dos cinco componentes principais a serem treinados. Dessa forma as equipes teriam mais facilidade no planejamento e execução de seus treinamentos.

Sabemos que o treino de um atleta nem sempre pode ser igual ao treino de outro, caso contrário estaríamos quebrando o princípio da individualidade biológica. Por isso pôde-se observar uma variedade grande no que diz respeito ao treinamento físico dos atletas entrevistados. Além disso, fica complicado especializar o treinamento em um esporte tão generalista como é a corrida de aventura. O “leque” que se abre oferecendo diferentes opções de treino é enorme, e torna-se difícil afirmar o que é mais e o que é menos eficiente. Certamente, o que é bom para um atleta não é necessariamente bom para outro, todavia, em outros esportes essa linha que divide o bom e o ruim é muito mais tênue do que nas corridas de aventura.

Enfim, o Brasil apresenta condições climáticas e geográficas favoráveis para o treinamento de seus atletas de corridas de aventura (faltando apenas ambientes de alta montanha com neve). Essa modalidade possui milhares de atletas espalhados pelo planeta e tem tudo para desenvolver-se muito mais, portanto os profissionais que se dedicam ao estudo dos métodos de treino para as corridas de aventura, certamente estarão colaborando para o fortalecimento dessa envolvente modalidade esportiva.

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