Trail Run

Survivor! 217 Km na BR135 sem apoio

Por Katia Ronise Fernandes em 25 janeiro 2021

Quando fiz os 217km da BR 135 em 2019, falei para mim mesma que aquela seria minha única experiência naqueles estradões, mas mal sabia que me apaixonaria pela Serra da Mantiqueira e lá voltaria muitas vezes, inclusive para fazer o próprio Caminho da Fé (417km de Tambaú a Aparecida ) em outubro de 2020. Tinha a ideia que na BR eu não voltaria, porém, a empolgação de um grupo de corredores, Os Pestes, que treinava para a BR na Luminosa, me contagiou. Fiquei ainda mais motivada quando soube que neste ano teria a categoria solo sem apoio, isso era tudo o que eu queria!!!!!

Depois de uma boa conversa com o comandante Mario Lacerda, diretor da prova, fiz a minha inscrição.

A BR 135 milhas (217 km) é uma prova que procura divulgar o Caminho da Fé e ocorre em um trecho desse trajeto. A largada é em São João da Boa Vista/SP com chegada em Paraisópolis/MG, passando por algumas cidades e vilarejos, no sobe e desce de estradões de terra e alguns pedaços de asfalto.  Durante a prova cada atleta tem pessoas com carros que fazem seu apoio, dando água, comida, descanso, etc. Mas este ano a organização permitiu que, se fosse do interesse do atleta, não seria necessário ter apoio; aí foi onde eu me enquadrei, feliz da vida!!!!

Nessa edição foram disponibilizados dropbags para os atletas sem apoio, os quais foram mandados para pousadas nas cidades ao longo do percurso e isso facilitou muito!

Fiz toda a logística dos dropbags estudando a quilometragem do percurso, para mandar para as cidades os equipamentos corretos, a comida e as roupas. Tracei a estratégia de onde eu passaria a noite, de como lidar com o frio, chuva ou com o calor das tardes quentes. Gosto muito desta parte, pois acredito que uma prova de endurance é muito mais que só quilometragem e uma estratégia bem feita é 70% de garantia que cruzarei a linha de chegada.

O início da jornada

Saí de São Paulo para Águas da Prata/SP de ônibus e lá deixei todos os meus 8 dropbags. Depois, segui para São João da Boa Vista de carona com meu amigo Mário, no carro do Charles, seu apoio.

Em 14/01 ocorreu a largada.  Devido à pandemia, a largada foi organizada para evitar aglomerações. Dessa maneira, cada atleta deixava seu número com o staff e largava em um horário escolhido por ele, entre as 10h da manhã e as 4h da tarde. Eu havia resolvido que sairia o mais tarde possível, pois a região faz muito calor, porém monitorando o tempo pelo aplicativo, vi que tinha previsão de chuva forte a partir das 13h e então, preferi antecipar e larguei às 11:30h.

Subindo e descendo por asfalto, deixei São João para trás e, já no campo, ao me deparar com as belíssimas paisagens da região tive a certeza do porquê de ter me apaixonado por aquela serra.

Quando saí do asfalto a liberdade veio me encontrar numa trilha bem esburacada, bem técnica, que não sei por que chamam de “Deus me Livre”, mas que eu adorei!

Pela trilha  fui passando por alguns corredores e ganhando confiança nas pernas, pois nos últimos tempos estava com dor na posterior de coxa esquerda e isso me preocupava.

Assim, segui por ali, conversando com algumas pessoas, me divertindo no sol escaldante da tarde e cheguei a Águas da Prata. Fui até a pousada Casarão que eu conhecia, peguei meu 1º dropbag e abasteci minha mochila com comida, bebida e equipamentos. Minha mochila agora estava realmente preparada para uma expedição, pesada e com tudo que eu precisaria para a noite.

A primeira noite

Retornei à estrada, a noite caiu rápido e com ela o vento anunciava que a chuva estava próxima. Encontrei mais pessoas e fomos trocando idéias … os papos são sempre os mesmos… provas, equipamentos e tudo que envolve corridas. A chuva veio forte! Usei um poncho de chuva bem leve, porém a água fria entrava pelas mangas e me deixava molhada. Mesmo assim, o anorak  “tecnológico” ficou guardado na mochila, rs. A estrada estava cheia de lama, difícil de correr! Mas para que correr, se estava divertido daquele jeito, entre escorregões e pulos no barro?

Enfim, após 63km percorridos, eu cheguei em Andradas. Me sentindo muito bem, peguei meu dropbag na pousada, mas não consegui um lugar para trocar de roupa. Na rua olhei ao redor e acabei me sentando no chão, sozinha, na porta de uma loja. Nesse momento passou um rapaz e perguntou se eu queria uma bebida, então achei melhor levantar e seguir meu caminho! Eu estava gelada e precisava trocar a roupa molhada,  vestir uma manga longa para me aquecer. Era tarde da noite, não encontrava nada aberto, e minha sorte foi ter passado um atleta com seu apoio e me ofereceu ajuda. Imediatamente pedi água para encher minhas garrafas. Assim que se foram, ouvi pela terceira vez: “que corajosa, sozinha por aqui”, e no momento pensei, isso não é elogio, é uma advertência! Tentei sair o mais rápido de Andradas. Engraçado que eu não tenho medo de estar na escuridão em provas longas no mato, na floresta, mas não fico à vontade de passar por estradões e cidades à noite.

Durante a primeira noite, na Serra dos Lima, não conseguia ver nada. A escuridão tomava conta do mundo naquele momento. Depois de muitas descidas, muita chuva e muito barro eu cheguei na Pousada Natalina onde estava meu 3º dropbag. Naquele momento não estava com vontade de comer e isso é péssimo! Fui trocar o tênis e me surpreendi com a alergia nos pés, eles estavam inchados e os tornozelos roliços. Precisei tirar as polainas e colocar meias de cano baixo, minhas pernas estavam quentes e eu sentia forte ardor. Na pousada uns amigos tinham reservado um quarto e, quando um deles, o Robson, saiu para continuar a prova, pedi para usar seu quarto para dar uma “encostada”. Não tinha sono e não consegui dormir, mas consegui descansar um pouco. E quando um outro amigo, o Fábio, chegou no quarto, foi a “deixa” para eu continuar meu caminho.

Começa um novo dia

Infelizmente, o tão esperado amanhecer foi sem espetáculo… com tantas nuvens, apenas clareou de repente! Neste trecho reencontrei um parceiro, o Thiago, com quem tinha caminhado um pouco durante a chuva. Encontrei um pessoal da AKSA, eles foram muito gentis e me ajudaram com a hidratação (era permitido pegar hidratação com os apoios de outros atletas). Naquele momento eu precisava muito me hidratar. Não há dúvida que os carros de apoio são muito importantes, mas em muitos trechos os carros estavam atolando, precisando trocar de estrada, eu não tinha apoio, mas também não tinha este problema, rs!

Passei por Crisólia e depois por Ouro Fino, onde tentei achar um lugar para almoçar, sem sucesso. Ali eu estava com muita fome, não queria gel, nem doces. Errei nesta logística, pois achei que pelo tamanho da cidade eu facilmente encontraria um restaurante. Também tentei achar uma pomada para a alergia das pernas nas farmácias, mas só fui encontrar na próxima cidade. Já em Inconfidentes, comi um lanche em um bar e não encontrei a pousada onde deveria estar o meu dropbag. Na confusão da minha cabeça acabei errando o caminho por duas vezes neste trecho e isso me deixou aborrecida. Já não bastava fazer 217km, ainda precisava aumentar o caminho!!??  Acho que o sol forte estava maltratando meus neurônios, rs!

Não lembrava o quão longe era este trecho até Borda da Mata, a cidade não chegava!!! Quando eu estava perto, liguei para uma conhecida que é massagista lá, ela me recebeu e me proporcionou uma boa relaxada nas pernas e um bom banho que me renovaram o ânimo. Saí da casa dela e fui atrás do meu dropbag na cidade. Como a pousada era longe, a organização me mandou de carro procurar. Ficamos muito tempo procurando, fiquei gelada, desanimei! Até ali estava tudo no tempo e no esquema que eu tinha programado. Mesmo com pequenos erros daria para fechar a prova abaixo das 50hrs (intenção).

Achado o dropbag, fui para uma padaria trocar de roupa. Demorei, mas quando consegui sair de Borda da Mata segui firme, peguei a estrada e tentei aquecer as pernas. Encontrei um casal que estava indo para casa a pé, muito fofos, a moça disse: vamos levar ela até “tal lugar”( não lembro bem qual). Então, não quis ser mal educada e deixá-los para trás, ainda mais que ouvi novamente: “você está sozinha, nós fomos assaltados semana passada aqui!”… Hummm pensei, acho melhor ficar com eles, rs.

O casal virou para a esquerda e eu segui meu caminho rumo a Tocos do Mogi.

Porteira do Céu

Sobe, sobe, sobe… cheguei à tão famosa Porteira do Céu! No escuro, essas subidas são menos assustadoras do que realmente são. Em Tocos do Mogi, fui pegar meu dropbag, a pousada estava aberta, não havia ninguém na portaria, só ouvia roncos de pessoas dormindo. Então, vi um quarto aberto, com uma caminha limpinha que parecia estar me chamando… Porém, fiquei em dúvida, pois como saber se aquela cama não estava pronta para alguém? E embora estivesse muito cansada e com sono, não consegui dormir no chão gelado onde eu deitei. Descansar assim é impossível! Resolvi seguir, afinal lembrava que era só uma subida, algumas descidas e logo estaria na próxima cidade.

Mas este foi o pior trecho! No início foi a barriga; que estava esquentando… depois o sono foi fatal para me deixar muito lenta, não conseguia progredir. Na escuridão, com chuvinha fina e barro, a subida que parecia ser leve foi duríssima. As bolhas e a dor nos pés eram terríveis. Era impossível parar ali, nem mesmo para limpar o tênis. Eu teria sentado ou até mesmo deitado no chão, mas estava muito molhado. Depois de muito tempo e dor, encontrei um ponto de ônibus com banco que foi minha salvação, ali consegui mexer nas bolhas, trocar os curativos e limpar as meias sujas de terra e assim deu uma aliviada. O sono, no entanto, ficou incomodando até chegar em Estiva e minha progressão foi muito, mas muito lenta. Depois de um tempo, já com o sol alto, parei, tomei café e cochilei sentada na cadeira de uma padaria em Estiva. Saí dali cambaleando, parei para comprar um cabo para o carregador de celular, que havia perdido no caminho e, ainda na cidade, parei para comprar mais água e coca cola. Foi quando abaixei a cabeça para mexer no celular que consegui me perder… acontece, rs! Parei mais uma vez para comprar um picolé, na verdade eu acho que estava era mole mesmo! Sem ninguém por perto, fica difícil de saber o quão lenta eu estava.

Penúltima parada

Penúltima parada: Consolação! Quando cheguei na pequena cidade, estava bem desidratada e com muita dor, o sol estava queimando a alma e fritando a pele! Decidi que faria uma parada mais demorada, deixaria o sol baixar. Então resolvi sentar e almoçar tranquila.  A Ana, parceira de estrada, dividiu seu macarrão comigo e deu tempo até de comer sobremesa. Quando saí do restaurante, passei por uma praça e não tive dúvidas, deitei num dos bancos e dormi por alguns minutos pela primeira vez e já no terceiro dia de prova! Saí e me dirigindo para a estrada, perguntei a um competidor experiente em quanto tempo chegaríamos a Paraisópolis, a resposta foi: “se você correr e fizer um bom trekking, você consegue fazer em um pouco mais de 4h. Pensei, não consigo correr, meus pés doem muito, como faço? Adoro estar nessas provas, curto muito, mas têm horas que canso de brincar e quero chegar o mais rápido possível. Nessas horas, para ajudar dar ânimo, fico sonhando com um bom banho e com o que vou comer, fico sonhando com isso!

O competidor que falou do tempo de prova passou por mim e, por um momento, fiquei observando sua movimentação, então comecei a esquentar as pernas e de repente a me animar, meu corpo começou a reagir, comecei a correr, estava no jogo de novo, gostei! Então, assim fui desenvolvendo, acabei tomando um analgésico para a dor nos pés, não seria possível correr com tamanha dor, amenizou bastante, o suficiente para trotar e caminhar mais rápido. Quando começou a escurecer, não queria parar para pegar lanterna e colete refletivo, eu só queria chegar! Lembrava que era uma subida e virava para esquerda e então era só descer para a cidade. Porém, ao virar, ao invés de descer, ficou plano, veio então uma descida interminável e na sequência outra subida! Isso me deu um desespero porque achei que tinha errado o caminho, estava quase escuro e sem nada de luz, a situação fico tensa! Foi quando eu estava voltando para verificar a última marcação que o Fabio, apoio da Ana, passou e me disse que eu estava certa e que faltavam apenas 3 km. Ufa! Comecei a correr e só parei quando cruzei a linha de chegada!

A chegada

Que prova sensacional!!! Gostaria de ter feito em menos tempo, mas foi o que consegui fazer e  fiquei feliz com o resultado de uma boa prova, onde praticamente tudo deu certo e como planejado !!! Uma experiência para a vida toda!!!!

Parabéns a todos que concluíram a Br 135/ 2021!!!! Parabéns aos queridos companheiros Os Pestes!!!

E um parabéns especial ao Mario Bazzali e ao Robson Lima que treinaram muito e concluíram a prova com sucesso!