Sucumbir e apesar disso, me sentir muito vivo e feliz! Só sei que foi assim...

Por Redação - 25 Jul 2014 - 08h50

Por: Fredy Guerra

O interesse em participar da Maratona Internacional dos Perdidos, considerada por muitos "a maratona mais casca grossa do Brasil" veio depois de participar, por indicação do amigo e corredor Guilherme de Agostini, da corrida KTR – Kailash Trail Run 2014, realizada na Serra Fina, "escalaminhando" 2.600m de ascensão para 27km pela Serra da Mantiqueira, o que me pareceu ser a corrida de montanha mais difícil do país, se levarmos em consideração altimetria por quilômetro.

Lá foi onde descobri o quanto gosto de corridas no estilo "Sky Trail Run", termo que até então desconhecia.

Talvez tenha me despertado o interesse pelo fato de já ter participado de muitas Corridas de Aventura e Multisport, onde as corridas são parecidas e também porque, até então, só tinha participado de corridas de montanha muito rápidas, pouco técnicas, por estradões, nas quais atletas chegavam a comparar PACE com corridas de rua, o que não me chamava muito à atenção.

A Maratona Internacional dos Perdidos foi realizada inicialmente no ano de 2013, inspirada nas mais difíceis competições de Corrida de Montanha existentes pelo mundo afora. Meu GPS marcou 3.260m de desnível positivo acumulado pelas grandes montanhas no trajeto. Conquistar o topo do Morro dos Perdidos e do Morro Araçatuba, atingindo um ponto máximo de 1.675m de altitude e contemplar aquela paisagem exuberante, não tem explicação.

Cerca de 80% do percurso consiste em terreno não transitável por veículos motorizados, o que me chamou muito a atenção e que torna essa prova extremamente técnica e selvagem. Segundo meu GPS, foram 46.8 km de uma verdadeira corrida de montanha, um desafio que nunca esquecerei e que sempre vou sentir enorme orgulho de ter cumprido.

Fui com minha namorada e com um casal de amigos. Gabriel Pinheiro quis se aventurar em sua primeira ultramaratona de montanha, enquanto sua namorada, Nathallie Cezário, e a minha, Juliana Mohallem, resolveram fazer sua primeira corrida de montanha "de verdade" e encararam os 13 km que passam por um trecho do circuito da maratona, o que não quis dizer que o percurso seria fácil, e não foi. Vê-las chegar e compartilhar aquele momento de superação foi emocionante, pois as provas aconteceram em dias diferentes.

Eu e meu amigo Gabriel começamos a prova com um trekking forte, a fim de não desperdiçar trote sem avanço e poupar nossa musculatura de panturrilha para um possível desenvolvimento em corrida. A estratégia deu certo, chegamos preservados e bem posicionados nos primeiros singles tracks técnicos com altimetria assustadora. Ali era fazer a leitura do terreno extremamente irregular e descer, sem exagerar no ritmo, para não sofrer com o desgaste muscular excessivo nas descidas e ser prejudicado posteriormente.

Pra mim, foi uma corrida bem administrada, consciente, mas no km 16 o solado do meu tênis começou a descolar e até o km 21, onde seria o ponto de apoio, foram 5km com meu tênis "conversando comigo" e eu pedindo pra ele aguentar mais um pouco. Diminui o ritmo e tentei não pensar no que aconteceria se o solado saísse por completo, apenas continuei e cheguei na área de apoio, local em que consegui apenas um tênis inapropriado para o percurso, mais liso do que tênis de corrida de rua gasto... rs... Era o que tinha e tinha que continuar com ele, pois não iria desistir.

No km 21, estava bem posicionado, em ritmo conservador, entre os 30 primeiros e com 3 horas de competição. Reabasteci minha mochila com soro e gel, tomei uma coca-cola e segui firme pra terminar a maratona. Meu outro tênis não me ajudou muito e levei alguns tombos já na "escalaminhada", na subida da primeira montanha. Depois de vários outros tombos e muita insegurança com meu tênis, comecei a me sentir fraco e a "quebrar", lentamente.

Perdi 12 posições até o topo do morro Araçatuba, no km34, mesmo assim ainda estava com 5 horas de prova e queria seguir em frente para terminar bem.

Comecei a descer, mas não conseguia parar em pé, consequência de um tênis inapropriado, logo no trecho onde me saio melhor, nas descidas técnicas muito irregulares. Perdi mais algumas posições muito rapidamente e comecei a me machucar nos tombos.

Uma baixa psicológica associada à baixa fisiológica me atingiu e sucumbi de vez. É frustrante a sensação de não poder completar da melhor maneira que poderia, mas tentei fazer uma leitura de tudo que se passava em minha mente. Estava bem confuso e frustrado. Dali pra frente eu caminhei lentamente por 3 horas, pelos 14.8km restantes, até a linha de chegada.

Não conseguia mais correr, mas sabia que não era apenas meu corpo, era minha cabeça que não estava legal.

Pensei em parar, mas pensei em todas as pessoas que estavam se esforçando para terminar em 10horas, a fim de não pegar o corte final. O tempo para elas era muito maior que o meu e porque não continuar e terminar do jeito que dava? Segui em frente e conversava com todos que me passavam e via o brilho no olho de cada um deles. Eu vivenciei outro tipo de corrida, uma corrida em que chegar bem era apenas uma consequência da dedicação e do esforço merecido, que poderia ou não ser recompensado.

Estou em um momento de redescoberta, conhecendo talvez a verdadeira fonte de inspiração pra seguir em frente, conhecendo lugares como este, me esforçando sem almejar pódios ou algum status, mas sempre me esforçando ao máximo. Estou mais preocupado em partilhar essas experiências com os amigos, namorada e núcleo familiar.

Entendo que só assim estarei realmente feliz com meu esporte, que me mantém próximo à natureza, pois acredito que nosso corpo é o veículo de realização da alma, que fazer ultramaratonas, corridas de aventura, multisport ou qualquer outro desafio outdoor, pelo menos para mim, não está sendo apenas mais uma forma de competição. Tento me divertir na corrida e descobrir o verdadeiro significado de estar ali, nas montanhas.

Hoje em dia, costumo correr e olhar ao redor, ver a paisagem. Quando estou no topo, é maravilhoso, mas é pelo caminho que vivencio as melhores histórias. Sinto-me mais consciente e calmo nos pontos de apoio, tento parar e conversar com as pessoas de lá, olhar ao redor e sentir aquela energia que está sendo enviada para nós. Aproveito para descansar, comer e então me sentir mais vivo, com meu corpo mais forte.

Sempre que terminar mais um desafio, quero compartilhar a sensação de eternidade com quem me acompanha, porque, nestes momentos, o físico não será prioridade, apenas um detalhe para realização de mais um sonho, uma consequência, que dura somente uma fração do dia.
Além disso, um atleta consciente é reflexo de um estilo de vida que escolheu.
Todas essas variáveis são um processo de evolução muito importante para todos nós. Por isso, acredito que muitas vezes, as outras horas do dia, não somente as dedicadas aos treinos ou competições, são as que mais te aproximarão daquilo que sonhou para você.

Bons treinos e boa escolha de estilo de vida.

Fredy Guerra
Atleta amador de Multisport e proprietário do Tendência Outdoor Assessoria Esportiva®
www.tendenciaoutdoor.com.br

Serviço
Maratona dos Perdidos 2014
19.07.2014
Tijucas do Sul (PR)
www.trcbrasil.com
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25 Jul 2014 - 08h50 | sul |
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