Relato BMS Team - Coast to Coast e Godzone

Por Camila Nicolau - 12 Abr 2013 - 10h46

Dia 31 de dezembro de 2012 brindamos o réveillon dentro do avião rumo à Nova Zelândia. Mais uma vez nós, Guilherme Pahl e Camila Nicolau, enfrentaríamos o Coast to Coast, campeonato mundial de multisport e um novo desafio, a Godzone, expedição sem apoio com 500km no berço das corridas de aventura e que em sua segunda edição as melhores equipes do mundo estavam inscritas.

Fomos recebidos pelo Flavio Vianna, o Flavinho Trotamundo, já morando em Christchurch há dois anos e agora conhecido como "Crazy Brazilian". Com ele treinamos todo o mês de janeiro focados no Coast. Fomos ao percurso algumas vezes, mas o tempo não ajudou muito, com muita chuva nas montanhas o nível dos rios, tanto da corrida quanto da canoagem, estava alto dificultando o reconhecimento.

Delegação brasileira no Coast to Coast 2013

O percurso - Os 243km do Coast to Coast são divididos da seguinte forma: largada com 3km de corrida em Kumara, praia da costa oeste do país, 55km de road bike, 33km da corrida mais técnica que já fizemos até hoje, toda pelo vale de um rio que cruzamos diversas vezes, fazendo um passo e descendo pelo outro lado por um segundo vale. O percurso não é marcado e por isso o reconhecimento prévio é essencial para uma boa prova. Depois desse incrível corridão são 15km de road bike novamente, ligando a corrida a canoagem. No rio Waimakariri percorremos 70km de corredeiras classe 2, para novamente montarmos na bike para o último trecho de 70km planos até a chegada na praia de Sumner, costa leste da ilha sul. Ou seja, cruzamos o país em um dia, de costa a costa. É isso que é fantástico nessa prova !

A prova - Pela primeira vez eu, Camila, me senti bem ao longo do dia e soube dosar melhor onde e quando fazer força. Terminei na 5ª colocação, meu melhor resultado até hoje. Gui melhorou e muito sua performance dos anos anteriores - essa foi sua terceira participação - em que competiu terminando na 15ª colocação. Já Flavinho estreou na prova com um excelente 11° lugar, bateu na trave e por 28 segundos não entrou nos top 10 do mundo!

O Coast to Coast foi a prova que inspirou a criação das corridas de aventura e até hoje nos inspira a desenvolver nossas habilidades individuais para formar uma boa equipe de corrida de aventura. É isso que o evento Brasília Multisport incentiva, foco no indivíduo para gerar equipes fortes de aventura. Além de ser mais longa e mais técnica do que um Ironman, o ambiente alpino e de aventura é o que nos fascina e nos fará voltar.

Godzone
Após o Coast to Coast começamos a focar na Godzone. Precisamos redefinir o time. Lico Gall e Dino Telles não poderiam mais viajar; o Crazy Brazilian, numa sanidade temporária, não pediu demissão e nossas possibilidades de montar um time totalmente brasuca se acabaram.

Foi quando Bernard Robinson e Sam Clark completaram o BMS Team, ambos atletas experientes de multisport. Sam é um velho amigo que já veio ao Brasil competir no Brasília Multisport de 2009 e com excelentes resultados no currículo, como o 4° lugar no Coast to Coast desse ano.

Time fechado, o próximo passo foi estabelecer a conexão entre os integrantes. Queríamos ter a certeza de que estávamos todos falando a mesma língua, pensando da mesma forma, com os mesmos objetivos dentro da prova, afinal se uma equipe não tem o mesmo objetivo dentro de uma prova de expedição já sabemos que a chance de insucesso é grande.

Realizamos, como temos feito desde 2007, um exercício chamado análise ambiental onde cada um faz uma autoanálise identificando seus pontos fortes e fracos, bem como oportunidades e ameaças à equipe. Com isso pudemos nos conhecer um pouco melhor e a partir daí estabelecemos a meta da equipe para essa prova: SERMOS COMPETITIVOS.

Com duas semanas para largada tivemos o prazer de ficar alguns dias na casa do Nathan Fa'avae da Seagate, atual campeão mundial de corrida de aventura. Fizemos alguns treinos com ele e como duas crianças curiosas, perguntamos tudo e mais um pouco sobre suas estratégias de prova, pegamos os mapas da Godzone anterior e fomos mapa por mapa entendendo suas estratégias e truques. Assim aprendemos muito e vimos estar traçando um ótimo caminho com nossas decisões.

Vai largar - Recebemos a tabela de logística na sexta feira. Nada de mapas. Organizamos nossos equipamentos e packs de rango nas caixas baseados na seqüencia de modalidades, distância, altimetria e estimativa de tempo fornecidos na tabela.

Sábado pela manhã embarcamos no ônibus rumo ao lugar onde seria a largada no dia seguinte e no caminho recebemos os mapas. A partir daí cada minuto contava. Ficamos vesgos de tanto ler os mapas ainda dentro do ônibus. Chegamos em Mount Cook, parque nacional com a montanha mais alta da Nova Zelândia, local onde usaríamos nossos crampons, botas e piquetas. Largada com 25km de montanha e glaciares.

Às 6 horas da manhã com tudo escuro, sentíamos apenas a presença das muralhas que nos cercavam. Como de costume, seja para 5, 50 ou 500km, a largada foi um estouro de boiada. Corremos por menos de 1km no vale e a tropa chegou na trilha. O desnível nesta subida seria de 1.555m e nem por isso diminuímos a intensidade. A trilha acabou e continuamos escalando pelos cascalhos até chegar aos primeiros glaciares junto com o Sol. Cordas fixas e o gelo ainda bem duro da noite impediam qualquer ultrapassagem. Finalmente podíamos recuperar o fôlego. Até alcançarmos o topo, o glaciar ficou incrivelmente íngreme - Quanta Patagônia!!, gritava Gui.

BMS GodZone

Ano passado, no mundial da França, aprendemos que as botas e crampons podem detonar os pés no primeiro dia de uma prova de expedição. Escolhemos modelos flexíveis para esta prova e pudemos correr montanha abaixo a full speed!!!

O segundo estágio foram 37km remando no rio Tasman com corredeiras classe 3 em ducks. Esse foi um dos trechos que mais gostamos na prova. O início da canoagem foi no lago com icebergs, as corredeiras assustavam um pouco, mas a temperatura da água assustou muito mais: 2 graus! Já tínhamos treinado com os remos de pá simples e felizmente saímos ilesos.

O terceiro estágio foi noite adentro, uma bike de 144km com bastante navegação e Gui tirou de letra, mesmo sem seu odômetro funcionar... foi só na terceira noite que ele percebeu que o campo eletromagnético do farol da bike estava interferindo no seu odômetro sem fio!! Toda vez que ligava o farol o cateye parava de marcar...e sua bússola da prancheta também estava doida! Disse para ele de maneira alguma usar a lanterna no capacete! Imagina se o tal campo eletromagnético interfere no seu cérebro...

O trecho seguinte seria o mais desafiador de toda a expedição, 69km de trekking onde calculamos precisar de 25 horas para completar. Saímos por volta das 7 da manhã e naquele momento ocupávamos a oitava colocação. Muitas equipes nos passaram na bike e não tivemos poder de reação. Mas ainda era muito cedo para afobar e nesse trecho poderíamos nos sair bem. Havia diversas opções de trajeto e iniciamos com uma boa escolha até o PC seguinte, porém não éramos eficientes como um time e não estávamos sendo competitivos.

Nesse momento percebemos que as coisas não estavam saindo exatamente como planejadas dentro do "team work". Vendo uma ameaça ao nosso objetivo se instalando, não deixamos para depois e convocamos uma assembléia extraordinária dentro da equipe. Sentamos e conversamos, pois o caso era sério.

Nas corridas de expedição sabemos que vamos ter que lidar com o inesperado. Ele pode vir na forma de um problema mecânico, um caiaque furado, uma lesão física ou desidratação; pode ainda ser um erro grave na navegação ou esquecer algum equipamento crucial ou até mesmo a comida... e o inesperado veio para nós sob a forma de conflitos de objetivo. E soube ali que o inesperado era algo totalmente novo pra nós. Nosso problema foi a COMUNICAÇÃO.

BMS pedala no Godzone 2013

Não havia nada que disséssemos para nossos companheiros kiwis que os motivasse. E não era um problema de idioma, body language bro!! Eles simplesmente não queriam estar ali. Procuramos entender suas frustrações, expúnhamos as nossas, falamos da importância de estar ali, do empenho e comprometimento, até de compaixão! No entanto não estávamos desempenhando como poderíamos e além disso corríamos o risco de parar a prova a qualquer momento.

Seguimos para mais uma bike de 55km onde as coisas melhoraram. Sem muito nos falar, simplesmente pedalamos e fizemos o trecho dentro do tempo esperado por nós. Chegamos de madrugada na transição seguinte, num rio para a segunda perna de canoagem, e fomos obrigados a aguardar o fim da dark zone. O que foi bom, pois dormimos mais quatro horas.

Pouco depois das sete da manhã relargamos para os 90km em caiaques oceânicos duplos. Nós sofremos pra acompanhar a dupla kiwi, pois são ótimos remadores, e fizemos o trecho com um dos melhores tempos da prova, 8 horas!

Nessa transição comemos lasanha, tomamos sopa com pão feitos por uma gentil senhora para todas as equipes. Foi nossa única refeição quente em 5 dias (desapego!) e saímos para o último estágio de trekking. O trecho era todo entre Tors, pedras enormes brotando da terra, e os pc's estavam todos escondidos nessas pedras.

Apesar de já apontarmos na direção da linha de chegada, estávamos todos desapontados com a nossa prova. O lugar era fascinante, mas infelizmente estávamos separados dentro do time. E foi preciso convocar mais algumas assembléias para o time continuar avançando. Uma delas em movimento durante a mais longa e íngreme subida onde realizamos o exercício dos "olhos nos olhos".

Não conseguíamos nos comunicar, não trabalhávamos em equipe, não havia confiança. Numa equipe é preciso experiência para oferecer apoio, é preciso humildade para aceitar apoio e é preciso muita confiança para pedir apoio... Aceitar a nossa situação dentro da prova foi muito difícil e só nesse momento eu, Camila, compreendi que nosso objetivo tinha mudado há muito tempo. Estávamos ali para remendar as ligações dentro do nosso time mais do que para competir. Estávamos todos no fundo do poço, cada um enfrentando seu demônio pessoal e acho que foi isso que nos motivou a chegar até o final. Conseguimos nos superar de alguma forma para continuarmos na prova.

O último pedal foi de 72km rumo a Queenstown com uma paradinha para o Canion Swing, o maior pêndulo humano do mundo! Isso foi show! E enfim, a tão desejada linha de chegada!!

Cruzamos o pórtico na 10ª colocação, pontuamos no ranking mundial do ARWS e nos sentimos muito orgulhosos pelo o que o time conquistou. Mais uma vez superamos o inesperado. Não repetimos os mesmos erros e tivemos mais um valioso aprendizado. Talvez nem todos alcançaram o queriam, mas com certeza todos alcançaram algo que precisavam.

Testemunhamos também uma evolução da corrida de aventura. Com a nova cobertura online, os 5 dias da GodZone atraíram um público de mais de 300.000 pessoas via internet. Nosso esporte agora lota 4 Maracanãs, todos desse público com poder de interação com os participantes. As equipes tem mais segurança e no pós-prova podem analisar e comparar suas decisões estratégicas com as de outras equipes. Isto muda o cenário para melhor.

Chegada da BMS no Godzone 2013

Futuro próximo - Logo estaremos de volta ao circuito nacional, mas antes vamos dar uma paradinha na China para nossa próxima competição dia 13/4. Será em Wenzhou, um multisport de 4 estágios em duplas. Cada dia terá em média 70km das modalidades que já estamos acostumados e mais algumas surpresas que ainda não sabemos.

As melhores equipes de aventura do mundo estarão novamente reunidas e mais uma vez teremos a oportunidade de competir, aprender e evoluir muito com elas. Enquanto isso, nossa equipe estará na Expedição Terra de Gigantes com os atletas Dino, Lico, Thiago Bonini e Bita Lapertosa sendo competitivos e buscando as primeiras posições.

FEH INABALAVEL

Cami e Gui - BMS TEAM

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Camila Nicolau
Por Camila Nicolau
12 Abr 2013 - 10h46 | geral |
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