Marcio Villar: o ultramaratonista das provas dobradas

Por Lilian Araujo - 24 Out 2012 - 16h36

O ultramaratonista das provas dobradas. É assim que o carioca Marcio Villar é conhecido no meio das competições extremas e de longas distâncias. Os 217 quilômetros oficiais das três etapas da Copa do Mundo das Ultras (Badwater, Arrowhead e Brazil135) são insuficientes para quem tem como meta fazer a ida e a volta de todas as provas que participa. No ano em que completa dez anos de corridas, o atleta acaba de, literalmente, enfrentar uma onça na dobrada da Jungle Marathon, a ultramaratona de 254,5 quilômetros em plena selva amazônica. Na comemoração da prova, além do recorde pessoal de 509 quilômetros, Marcio Villar ainda levou para casa o troféu do terceiro lugar na classificação geral.

Marcio Villar na Double Jungle Marathon

Super-homem? Não. Marcio Villar se considera apenas alguém que gosta de sair do trabalho e correr pelo Rio de Janeiro, subir a Pedra da Gávea ou o Cristo Redentor, se imaginando dentro da próxima prova. Questionado sobre os motivos que o leva a dobrar ultramaratonas, ele resume com um simples "Amo o que faço".

Veja, a seguir, a entrevista com o ultramaratonista Marcio Villar:

Adventuremag - Você acaba de comemorar 10 anos de corridas dobrando a Jungle Marathon. Como foi a prova, em termos de desafios, obstáculos e superações?
Marcio Villar - A melhor maneira que encontrei de comemorar meus 10 anos de corridas foi dobrando a ultramaratona mais difícil do mundo, a Jungle Marathon. Corri (no total) 509 Km. Corri 254,5 Km antes da largada oficial e depois parti para mais 254,5 Km junto com atletas do mundo todo e conquistei o terceiro lugar na geral. Tentei buscar o segundo, mas um erro no caminho da trilha não deixou.

Foi simplesmente fantástico e inexplicável! Nos três primeiros dias que larguei da chegada para largada tive o apoio do meu irmão Gilvandro Marcelo Santos Almeida. Ele foi o único com coragem de embarcar comigo nesse desafio. Passamos por momentos difíceis, como no segundo dia quando demos de cara com uma onça. A cada etapa completada me sentia mais forte, acabava todo dia inteiro, sem dores musculares nenhuma e brincando com todos. No fim do sétimo dia, quando cheguei na largada e encontrei todos os atletas, ninguém acreditava que eu já tinha fechado a prova, pois eu estava muito inteiro.

Quando parti para o percurso oficial, foi uma superação dia a dia. No oitavo e nono dias foi tudo bem, mas no décimo meu rendimento caiu depois do CP2. Esta foi a parte mais difícil. Foi o único momento em que achei que não conseguiria dobrar a prova. Para piorar, por mais de 40 minutos corri entre o CP3 e CP4 com uma onça me acompanhando. Corri com uma faca na mão e teve momentos que tive que sair da trilha da corrida para tentar fugir dela. Também pisei em uma cobra e, por sorte, ela mordeu a parte dura do tênis. Corri na raça, tirando forças de onde não tinha para terminar esta etapa. Com muita dificuldade, consegui finalizar este trecho. Terminei muito bem o décimo primeiro dia e aproveitei para me preparar muito para os dois próximos dias, que incluiria a etapa longa de 108 km por charcos, praias, pântanos, trilhas e mata fechada. O mais fantástico e inexplicável foi que, de novo, eu corria cantando e brincando, mesmo já tendo corrido 11 dias.

Eu sabia que a etapa longa seria determinante se eu quisesse conseguir algo mais na prova. Além de somente percorrer os 509 km, essa era a hora de pensar no pódio. Da largada ao CP5 eu me mantive entre os três primeiros colocados, mas na chegada do CP 5 fui ultrapassado por um inglês. Como ele demorou muito para sair do CP, aproveitei para recuperar o terceiro lugar e fui em busca dos dois primeiros. No CP8 cheguei a ficar somente 15 minutos atrás deles, porém entre o CP8 e CP9 peguei um caminho errado e perdi muito tempo. No CP10 estouraram duas bolhas na sola dos pés. Tive que me contentar com o terceiro lugar.

Depois de uma hora e meia após cruzar a linha de chegada, caiu a ficha: quando eu imaginaria 10 anos atrás, com meus 98 Kg, que conseguiria dobrar uma das ultras mais difíceis do mundo, correndo 509 Km e, ainda assim, conquistando o terceiro lugar na geral geral, contra atletas de todo mundo? Tive uma crise de choro que não parava.

Marcio Villar - Jungle Marathon 2012

Advmag - Você, normalmente, conquista as pessoas por onde passa e acaba, quase que naturalmente, conseguindo apoio e ajuda no meio das competições. Na Jungle Marathon também foi assim?
MV – Foi sim. A Shirley (organizadora inglesa), preocupada com minha segurança na etapa da chegada para largada, colocou um motoqueiro à disposição para me acompanhar na estrada e me fornecer água. Por segurança, ela também me mandou dormir no fim de cada etapa sempre na casa do presidente de cada comunidade. Na etapa das onças, corri com um guia para me proteger. Uma pessoa foi fundamental para que eu conseguisse fazer esse desafio: Maria Vargas, que além de minha médica, nutróloga, amiga e "irmã", ainda comprou com dinheiro do próprio bolso os suplementos para eu consumir na prova e também montou meu café da manhã para os 14 dias. Tenho muita sorte em conhecê-la. Sem ela, eu não teria conseguido.

Aproveito para agradecer a organização da Jungle Marathon, assim como aos bombeiros, ao pessoal do resgate, apoios, massagistas, mídia e a todos que me incentivavam a cada PC. Agradeço primeiro a Deus e a Nossa Senhora; ao meu amigo Bigatello, que me deu a passagem área para a Jungle; meu grande amigo Gilvandro, que correu comigo os três primeiros dias; e aos meus patrocinadores Kailash, Mundo Terra, Caminho dos Anjos, Gaffa Marketing e Maria Vargas Nutrologia e Clinica Esportiva. Graças ao apoio de vocês, tive meu sonho realizado.

Advmag - Existe um motivo que o leva a querer dobrar provas, cujo formado original já são de longas distâncias e em condições extremas?
MV - Existe sim, eu não gosto de provas normais. Gosto de desafios, algo que nunca ninguém fez.

Advmag - Dobrar competições longas e extremas é um vício ou uma paixão?
MV - Paixão com certeza! Na Jungle, por exemplo, eu estava inteiro quando encontrei os atletas depois de já ter corrido 254,5 km. Estava rindo e brincando. Na prova normal, a partir do terceiro dia o pessoal chegava tortinho, chorando, mancando, enquanto eu os chamava para jogar bola, brincando, dando força para não desistirem e incentivando e ajudando. Corria feliz! É isso que importa para mim, o resultado é só conseqüência.

Marcio Villar na Bad Water (EUA)
Marcio encarou temperaturas de 55ºC na ultramaratona Badwater

Advmag – Quais provas já dobrou?
MV - Já dobrei a Badwater (434 Km - Vale da Morte, Califórnia - EUA), Brazil 135 (434 Km, Serra da Mantiqueira), Ultra dos Anjos (470 km, Serra da Mantiqueira) e a Jungle Marathon (509 Km, Floresta Amazônica), o equivalente a 1.847 km. Agora me falta dobrar a Arrowhead, na divisa dos EUA com o Canadá, etapa na neve de 434 km, com temperaturas que podem chegar a 40 graus negativos e ainda puxando um trenó.

Advmag - Quando fez sua primeira prova dobrada?
MV – Em 2010, na Badwater. Dois anos antes, quando havia feito esta prova no trajeto normal, soube que outros dez atletas já tinham dobrado a prova. Mas todos moravam no deserto e estavam acostumados ao calor e isso ficou formigando na minha cabeça de fazer algo diferente.

Advmag - As motivações mudaram de lá para cá?
MV - Depois de dobrar a Badwater, parti para as outras duas etapas da Copa do Mundo de 217 Km em ambientes extremos (BR135 e Arrowhead) e resolvi que iria dobrar todas.

Advmag – Como está sua temporada 2012 de corridas?
MV - O início do ano foi meio triste. Tentei dobrar a prova da neve (Arrowhead - 434 km), mas caí em um buraco e tive que me arrastar por oito horas para não morrer congelado. Depois disso fiz a Double da Ultra dos Anjos (470 km) e agora a Double da Jungle Marathon (509 km).

Advmag – É possível considerar alguma destas provas como a mais difícil?
MV - Na verdade, não existe prova mais difícil. Tudo depende da preparação tanto física como mental. Se o atleta está bem treinado e focado, uma prova difícil se torna fácil. Mesmo em uma prova curta, se não estiver bem preparado, vai sofrer para atingir o objetivo. Cada um tem uma dificuldade. Para mim, difícil é o frio de 40 graus negativos, em que não se pode haver erro e qualquer falha pode ser fatal.

Advmag – A temperatura mais baixa foram os 40 ºnegativos. Qual foi a mais quente?
MV - A maior temperatura foi acima dos 55º graus, na Badwater, quando dobrei. Foi inesquecível! Primeiro fiz a prova normal e na minha volta todos os outros atletas passavam por mim de carro para ir embora e me incentivavam muito para conseguir dobrar. Precisei correr em cima da faixa branca do asfalto para não derreter a sola do tênis. Na parte final, faltando uns 40 km, meu corpo ferveu. Tiveram que me cobrir com gelo para baixar a temperatura e eu conseguir correr os 40 km finais. Já na neve, na primeira vez quase tive os dois pés amputados por congelamento. Na segunda vez, cheguei a aceitar a morte, pois já tinha congelado pés, mãos, costas e peito e nesse ano cai no buraco.

Advmag - Para quem está de fora, a impressão é que você nunca pensou em desistir. Este pensamento passa por sua cabeça nas provas?
MV - Não, nunca. Eu treino muito minha mente e não só o corpo. Sempre simulo a prova nos treinos. Se vou correr no deserto, treino na sauna e ao sol de meio dia. Se vou correr na neve, puxando um trenó, eu corro na rua puxando um pneu. Se vou fazer uma prova como a Jungle com equipamentos na mochila, treino com uma mochila com 10 km nas costas. Em todos os treinos corro mentalizando a linha de chegada e me imagino cruzando a mesma. Às vezes me pego sorrindo sozinho nos treinos. No dia da prova, o percurso está pronto na minha mente e nada me impede de conseguir.

Advmag - Já precisou desistir de alguma prova e depois se arrependeu?
MV - Tive que desistir de duas, mas nenhuma me arrependi. Na Jungle do ano passado, salvei um atleta que estava se afogando. Como bebi muita água podre, passei mal. Mas uma vida vale mais que uma corrida e não tenho do que me arrepender. A outra foi a primeira vez que fiz a etapa da neve, quando ao tirar a meia para trocar percebi que estava congelada. A médica da prova viu meus pés e falou que se eu continuasse teria que amputá-los, mas se eu abandonasse daria tempo dela salvá-los. Não tive escolha!

Advmag - Há algum episódio em provas que tenha te marcado?
MV - Na Double da Badwater um casal de americanos resolveu se unir aos meus apoios, junto com outro americano e meu amigo brasileiro Luis Tadeu. Cuidaram de mim por todas as 79 horas que corri e ainda pagaram o aluguel do meu carro de apoio e meu hotel do bolso deles. Depois da prova me mandaram um e-mail, agradecendo e dizendo que mudei a vida deles. Isso foi o que mais me marcou em todas as provas. Há outros episódios, como quando um atleta, que já estava indo embora, parou e voltou para me falar que eu estava provando para o resto do mundo que o impossível não existe. Outro atleta veio na minha direção com um pedaço de bolo e um copo de refrigerante na mão e me pediu para aceitar, pois ele poderia falar para todo mundo que me ajudou.


Cada atleta deve puxar seu trenó durante a Arrowhead

Advmag - Você se considera disciplinado?
MV - Nem um pouco. Corro para ser feliz. Não posso ter treinador me mandando fazer isso ou aquilo. Gosto de quando saio do trabalho e faço o que me dá vontade e prazer. Adoro subir a Pedra da Gávea, o Cristo Redentor, Prainha, Grumari.

Advmag - Além de correr (muito), como é o seu dia a dia?
MV - Trabalho durante o dia como analista de sistemas em uma construtora. Treino depois que saio do trabalho. Não ganho um centavo com o esporte. Para eu competir, dependo da ajuda de amigos para as despesas e ainda tenho os dias fora descontados das minhas férias. No dia a dia gosto de jogar futebol, de passear de bicicleta e nadar na praia.

Advmag - Você se considera fonte de inspiração para outros atletas?
MV - Recebo muitos e-mail e mensagens de pessoas dizendo que sou fonte de inspiração, me agradecendo e dizendo que graças a mim não desistiram de uma prova, que perderam quilos ou que estão treinando para determinadas provas. Apesar disso, eu me considero como qualquer um. Apenas faço o que amo.

Advmag - Como você avalia o mercado para ultramaratonas no Brasil?
MV - Está crescendo bastante, porém ainda falta aparecer patrocinadores tanto para atletas quanto para os organizadores das provas. O custo é muito grande, são gastos com passagem, hotel, inscrição, alimentação, sem falar na quantidade de tênis que gastamos.

Advmag- Quais seus próximos desafios?
MV - Tenho duas provas de 24 horas, uma no início de novembro, em Porto Alegre (RS) e outra no dia 25 de novembro em Campinas (SP). Usarei estas etapas como treino para o meu grande desafio: a Arrowhead 2013. Já comprei um trenó fantástico, que desliza melhor na neve, e estou vendo um tênis especial. Fora isso, agora é só focar e correr mesmo. Eu já trouxe dois troféus da Arrowhead. Desta vez, tenho certeza que dobrarei. Estou mais forte, mais experiente e com mais vontade que nunca.

Advmag - Existe um fim? Já parou para pensar quando vai parar de correr provas de longas distâncias e em condições extremas?
MV – Não existe um fim. No dia em que eu morrer, estarei feliz. Se eu parar, acho que enlouqueço. Isto é o que amo fazer e nunca quero parar. Pelo contrário, tenho planos para desafios cada vez maiores, mas o grande problema é não ter dinheiro para fazê-los.

Lilian Araujo
Por Lilian Araujo
24 Out 2012 - 16h36 | geral |
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