UTMB 2012 - A montanha, precisamos respeitar!

Por Jorge Elage - 05 Set 2012 - 14h50

O Sol que se recusou a aparecer nos últimos três dias voltou a brilhar intensamente no domingo, a tempo de acalorar o encerramento deste grande evento. No conforto da sala de imprensa sento próximo ao palco na coletiva que antecedeu a cerimônia de premiação. A minha frente, a organizadora Catherine Polleti, o prefeito de Chamonix e o representante da North Face, marca patrocinadora do evento. A seu lado uma dezena de atletas, possivelmente os melhores corredores de montanha do mundo do ano de 2012.

Absorvido, escuto atentamente cada declaração, rabiscando no caderno frases que me fizessem lembrar e transmitir tudo o que era narrado. Durante as 24 horas anteriores Rafael Correa e eu estivemos diretamente envolvidos na missão de cobertura do evento e, como bons aventureiros que somos, não nos contentamos em seguir a prova no ônibus da organização. Optamos por seguir autônomos em nosso próprio carro e fazer alguns trechos da prova junto com os atletas, vivenciando-a diretamente. Assim, tudo se encaixava... cada palavra, cada descrição da prova, cada lugar ou fato narrado fazia sentido.

UTMB 2012

Certamente falavam dos méritos de cada um dos atletas por estar ali, elogios aos vencedores de cada prova e suas categorias... mas principalmente os pontos da conversa fluíam em direções mais amplas do que propriamente a performance dos corredores da 10ª edição da Ultra Trail du Mont-Blanc. Todos, sem exceção, expressavam sua satisfação por estarem presentes num evento de tamanha potencialidade, com participação de corredores do mundo inteiro: mais de seis mil atletas inscritos, somados a mais de mil voluntários, milhares de familiares e acompanhantes, milhares de cidadãos que acompanharam a prova ao longo do percurso... Repito, todos, sem exceção, exaltavam a energia e a positividade com que a comunidade de Chamonix e de toda a região dos Alpes da França, Itália e Suíça recebiam a prova e afirmavam ser esse o verdadeiro motivo de alegria e celebração para a comunidade esportiva ali presente.

Os organizadores e patrocinadores, especificamente, falaram positivamente da capacidade logística em operar o evento com segurança, tanto por liberar durante o dia a passagem da prova CCC nos passes de montanha de grande altitude – os mesmos que posteriormente viriam a tornar-se impraticáveis, forçando a alteração do percurso da maior prova (UTMB), quanto por evitar expor os atletas aos perigos da hipotermia e à dificuldade de resgate noturno em alta montanha. Para ressaltar a assertividade da decisão foi citado o exemplo do corredor francês Sebastien Chagneau, um dos favoritos da prova, que acabou parando a apenas dez quilômetros do final, devido a uma cegueira causada pelo congelamento de suas córneas.

UTMB 2012

Dawa Sherpa, nepalês, vencedor da prova TDS, a mais longa dessa edição (uma vez que a UTMB 2012 teve excepcionalmente “apenas” 100 quilômetros e 6 mil metros de ascensão acumulada ao invés dos 166 quilômetros originais com 9.5 mil metros de ascensão) reforçou aos jornalistas que o sentimento na chegada é sempre de superação da dificuldade... Que ao falar de números como esses, de qualquer “ultra” acima de 80 quilômetros, sempre é difícil, independente das condições climáticas e do total de metros em ascensão, e que portanto, sentia-se feliz por ter chegado em primeiro e parabenizava também os esforços de todos os que finalizaram qualquer um dos quatro percursos da competição.

Uma história interessante foi contada pela americana vencedora da prova CCC que, tentando manter o ritmo e garantir a liderança da prova vinha acompanhando outros homens. Ela disse ter falado umas três horas em um francês macarrônico com o outro atleta até finalmente lhe perguntar de onde ele vinha. Para sua surpresa, a resposta foi Irlanda, e que então eles, depois de muita risada, puderam seguir correndo e falando suas línguas maternas. Já a felicidade do espanhol, vencedor em tempo recorde da CCC (abaixo de 9 horas), foi potencializada em sua chegada, que precedeu em minutos a largada dos 2480 corredores da UTMB. Observado por milhares de pessoas que aguardavam a largada da prova principal e de todos os atletas, ele foi o responsável por adiar em alguns minutos a pontualidade da prova e teve para si a atenção de todos os presentes, segundo ele "uma experiência marcante e inesquecível".

Emma Roca, espanhola, campeã mundial de corridas de aventura pela equipe Buff e bi-campeã do Ecomotion / Pró, também presente no palco graças à terceira colocação na prova UTMB, falou da dificuldade do novo percurso e das condições climáticas, mas sobretudo reforçou o desempenho da grande vencedora da categoria feminina, a britânica Elizabeth Halker, agora penta campeã do evento, a quem classificou de "de outro planeta" e parabenizou por representar tão bem o gênero feminino diante do público geral. Ela terminou a prova na incrível 16ª colocação geral com o tempo de 12h32min (repetindo, de 2480 atletas presentes na largada).

UTMB 2012

Já no masculino a vitória ficou com o francês François d’Haene. O jovem de 27 anos disse que ficou desapontado como todos que o percurso original tivesse sido alterado, mas reforçou a alegria com sua vitória por tê-la conquistado contra os mesmos atletas concorrentes, todos ali altamente preparados para o desafio. Ele disse que fez uma prova agressiva, respondendo a todos os ataques dos outros competidores durante as primeiras horas da prova, e que avançou ao primeiro lugar "para sentir a energia e os altos gritos das pessoas que incentivavam os atletas quando passavam pelas vilas e pontos de apoio". Ele continuou forçando o ritmo sem que ninguém ameaçasse sua posição e finalmente, após sua segunda passagem por Les Houches, já com cerca de 65 quilômetros percorridos, começou a acreditar que poderia vencer o evento, fato que se consolidou no tempo de 10h32min, exatamente o previsto pela organização do evento antes da largada.

Nossa favorita, Fernanda Maciel, fez uma prova de recuperação em muitos sentidos. Debilitada por um vírus adquirido duas semanas antes do evento, ela fez uma prova "abaixo de sua expectativa", garantindo a sétima colocação entre as mulheres, 67ª no geral (chegou a estar para baixo da 200ª posição). Em entrevista durante a cerimônia de premiação ela ressaltou a dificuldade da prova, disse estar muito feliz por ter terminado (ano passado ela passou por problemas intestinais e depois de sofrer por mais de 10 horas teve que abandonar a disputa no quilometro 140) e também reforçou que as condições climáticas estavam fora do padrão, afirmando que a organização havia tomado a decisão correta em diminuir e alterar o percurso original. 

No masculino, o paulista Sidney Togumi cruzou a linha de chegada com um sorriso largo e muito contente com sua conquista pessoal. Relatou as dificuldades com o frio, com a neve e afirmou que pra chegar bem, abaixo do tempo de corte, todos "tem que correr na descida"! Bem, disso ele já sabia, mas que agora ele sabe muito melhor o que isso realmente significa. Na CCC Manuela Vilaseca representou muito bem as cores da nossa bandeira conquistando a 12ª colocação na categoria feminina, além de ter encarado as condições mais adversas de todas as provas (percorrendo os trechos da Itália e Suíça) e atravessado os passes de montanha que na noite seguinte viriam a registrar 40cm de neve e temperaturas de -10ºC!!!

E finalmente a equipe de cobertura, composta por Jorge Elage nos textos e vídeos, Rafael Correa nas fotos e Caio Tarantino na direção de arte, encerrou os trabalhos no Vale de Chamonix certa de que este foi apenas a primeira de outras visitas que faremos ao local, afinal Chamonix é realmente tudo aquilo que falam e a Ultra Trail du Mont-Blanc é muito mais do que a qualquer um pode imaginar!

Um salve às montanhas... Bravo!!
Jorge Elage

Jorge Elage
Por Jorge Elage
05 Set 2012 - 14h50 | geral |
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