Half Marathon des Sables Fuerteventura | Raissa Zortea

Foto: Rubén Fueyo
Foto: Rubén Fueyo

Neste mês de setembro estive participando da 2ª edição do HMDS Fuerteventura, sendo a primeira brasileira a realizar a prova. Uma prova realizada em estágios (3), totalizando 120km. Os trajetos não se repetem e são modificados todos os anos, seguindo a tradição da prova mãe MDS – Marathon des Sables.

Os estágios foram de 25km, 68km e 22km e o ganho altimétrico passou dos 3.000m. Para quem pensava que correr no deserto era correr no plano, subimos paredes de pedras e muitas dunas.

As regras são claras e dentro do regulamento existe um limite de peso a se carregar. De 5kg-12kg. Além disso deverá se carregar 2.000kcal/dia, totalizando 8.000kcal/dia a contar o rest day. Então, a partir daí começa a prova, um verdadeiro quebra-cabeça.

Primeira coisa: você se tornará um maníaco por peso e calorias

Eu não sei quantas vezes eu contei calorias, selecionei alimentos, os pesava e mudava de opinião porque eles pesavam demais. Novamente eu escolhia outros alimentos, de preferência muito calóricos e com menor volume possível. Quando eu descobri que um pacote de rapadurinhas possuía 1000kcal, eu praticamente trafiquei rapadurinhas para a Europa. Fora isso, muita comida liofilizada. Meus pacotes eram para 2 servings (e eu literalmente comia por duas pessoas).

Vista aérea do acampamento do Half Marathon des Sables Fuerteventura
Vista aérea do acampamento do Half Marathon des Sables Fuerteventura

E se pensar que o peso era apenas muita comida… havia ainda o saco de dormir, o colchão isolante, o kit primeiros-socorros (que me salvou!), espelho de sobrevivência, headlamp, pilhas, fogareiro militar, chaleira (afinal de contas você precisa preparar sua comida), uma roupa reserva (porque você não suportará sua roupa de corrida para dormir), chinelos, corta-vento, 2L em líquidos, protetor solar e acredite tantas outras coisas de uso pessoal…

Sobre os pés

Eles terão bolhas, sim. Eu que nunca tive bolhas, ganhei algumas. Foi o primeiro item do kit primeiros-socorros: Compeed, esparadrapos e antisséptico. Mas me sentia sortuda olhando os pés dos outros competidores, era um filme de terror. Você perderá as unhas. Perdi duas. Mas não se preocupe, há uma equipe médica junto. O hospital parecia fila do SUS, mas no fim todo mundo recebia atendimento de primeira.

É uma vida do cão, acredite

As comidas são horríveis e mesmo assim você só pensa em comer. Eu parecia uma draga, mas estava louca para me livrar do peso. A comida vinha com prazer por saber que seriam algumas gramas a menos… A sorte é que sempre haviam competidores educados com melhor oferta de comida. Ganhei prosciutto e parmigiano, até me sentia culpada por comer comida alheia, mas tudo que eu ganhava era muito melhor do que eu carregava.

Foto: Diego de la Iglesia
Foto: Diego de la Iglesia

Você irá feder muito

O calor é insuportável e não adianta pensar que toalhas umidecidas resolverão seu problema. Eu cheguei a me ensaboar algumas vezes, mas não adiantou, pois a sua roupa parecerá ter saído da fossa. No 3º dia eu não me suportava e não deixava as pessoas nem se aproximarem de mim.

Você receberá 5 L de água por dia. Então o jeito é administrar bem. Em primeiro lugar se hidratar e depois, esquentar água para comida. Restará pouco para a higiene. Tive um maravilhoso vizinho, o italiano Fulvio, que além do parmigiano, me deu buchas hospitalares para me lavar. Foi excelente, toda manhã eram aquelas buchas que preparavam meus pés para entrar limpos, sem areia, nas meias.

Os banheiros ficavam a 1km das barracas. Até para isso era difícil. O jeito era achar uma moita e sua bunda ser exposta ao mundo, afinal de contas você está no deserto e não há muitos refúgios.

Areia se tornará sua aliada

Não tem como não conviver com ela. Ela estará em tudo, até na sua comida, bebida. Você dormirá abraçado nela. Então ela deverá se tornar uma aliada. Tive uma reação alérgica –  inclusive durante a prova – ao calor, suor e areia. Gastei o fim da minha reserva de água para umedecer apósitos e colocar nas inflamações. Passei meu restday inteiro fazendo isso. Ela não se tornou minha aliada no fim.

Até os mais competitivos irão lhe incentivar

Achava engraçado que eu não memorizava ninguém, mas todos sabiam quem eu era. Um apoio incondicional e todos sempre perguntando da minha reação alérgica, como estavam minhas pernas, se eu tinha melhorado. E a cada etapa que eu vencia, eu escutava “como é bom lhe ver por aqui; Que maravilhoso que você conseguiu; Estou torcendo por você.”

E no fim, mesmo sabendo que eu queria apenas “terminar”, você sente uma vontade forte em dedicar seu melhor. Porque o sofrimento é tamanho que terminar não basta, você quer se superar.

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E no fim você irá querer mais

Porque a experiência do HMDS não é vestir um par de tênis para enfrentar o calor e correr. É além disso. É a família que se constrói. Você vê valores que talvez tivesse se esquecido. Como parceria, confiança, incentivo.

Nos últimos quilômetros do long stage eu me encontrava sozinha, andando por um trajeto que não me passava nenhuma confiança. Havia uma neblina baixa, minha lanterna não iluminava bem e eu apenas observava na areia os passos dos que por ali já tinham passado… Essa era minha referência.

Mas sempre se aproximam pessoas e quando andar junto deles, o convite foi claro em: vamos juntos, venha com a gente!

Mas como foi em Fuerteventura afinal?

O trajeto da prova oferecia poucos caminhos regulares. Na realidade era um misto de muitas pedras vulcânicas soltas e areia fofa. E, diferente do Marrocos, a Ilha de Fuerteventura era bem úmida e à noite chovia praticamente dentro da barraca. Então, além da umidade, a sensação térmica vinha de maneira bem agressiva.

Duas etapas iniciaram 9h30 e a última às 10h da manhã. Já era calor de início e os postos de água variavam de 8-10km, onde tínhamos 2L em cada um deles. Eu utilizava tudo, sempre.

Todos pediam água na nuca e nos punhos, o que vinha bem a calhar, porém tanto o suor quanto a água que escorria criaram uma fricção entre a mochila e as minhas costas, o que a tornou uma lixa. Minhas costas no segundo dia já estavam em carne viva.

O primeiro dia com 25km foi muito sofrido devido ao calor. Largamos de um abismo e corremos entre pedras vulcânicas e areias pretas. Após algumas subidas, entramos em uma estrada de chão dentro de um vale onde a sensação térmica passava dos 40ºC  e sempre em elevação até o primeiro PC. Quando cheguei lá já “via estrelas” pelo calor e do peso da mochila

Ali iniciou uma subida mais íngreme até o pico de 300m. Ao atravessar o pico a descida pedia uma corrida, mas novamente sempre pedras soltas e tropeçar era muito simples. Obviamente tropecei e cai diversas vezes, pois mesmo se desequilibrando o peso da mochila te impulsionava.

Ao passar o segundo PC uma vista linda nos assolou. Eram precipícios de pedras ao longo da costa, onde coloria um azul vibrante em meio ao amarelo. Entramos na costa em pedras de arenito branquíssimas por uns 8km, onde as ondas do mar desenhavam uma geologia diferente.

Ao fechar 23km, mais uma parede para se subir em direção às nossas tendas e a sensação de estar entrando no inferno outra vez.

Concluí meu primeiro dia e já busquei como preparar o alimento no fogareiro militar. Queimei alguns dedos obviamente, pois o vento não deixava a chama acender e sim, a comida ficou horrível. Primeira experiência falha.

Passamos o fim daquela tarde descansando no bivac principal, onde todos deitavam em seus colchões, antes de se recolher às suas tendas.

E no que anoitecia todos já estavam indo dormir, restava apenas arrumar tudo para o dia seguinte. As barracas eram individuais e formavam uma verdadeira comunidade.

Primeiro dia

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Segundo dia: ao amanhecer já se ouviam vozes que te levantavam. Preparar o café da manhã, que já ficou melhor, fazer uma caminhada matinal até os banheiros e logo já se deveria partir. Seria o long stage que resultaram em 68km. O corpo sentia algumas dores do dia anterior, mas era rumar.

Segundo dia

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Largamos em direção a Cofete dentro do Parque Natural Jandia. Nos primeiros 4km corremos em areia muito fina, como dunas, após isso descemos até a costa por um caminho técnico, mas dessa vez com muita areia fofa. O trecho de praia foi por cerca de 14km. Ao correr eu presenciava a foto de chamada da prova e realmente era deslumbrante.

No segundo PC minhas polainas começaram a desgrudar devido à quantidade de areia e aquilo me preocupou um pouco. Perdi alguns minutos tentando entender qual seria a melhor solução e ao final, deixei como estava para ver até onde o velcro aguentaria.

Por sorte, no km 18 saímos da costa e entramos em outro vale da morte com subida até o km 23. Essas subidas são massacrantes, pois mudam totalmente a geologia de areia para pedras vulcânicas pretas e soltas, que canalizam o calor para dentro da alma. Essas pedras soltas dificultavam muito o desenvolver da corrida, fora que me arrancaram mil unhas.

Devia ser por volta da uma da tarde, então percebi que nem metade da prova tinha passado e o pior do calor ainda estava por vir. No km 23 chegou-se a um filo onde vimos ambas costas, sul e norte, visão lindíssima, dali era novamente tentar uma decida cautelosa a fim de se chegar ao próximo PC em busca de mais água.

Na parte sul da ilha as praias se modificavam totalmente. Eram praias calmas com cascalhos e no ápice do calor o que mais doía era ver aquelas praias maravilhosas e não poder se banhar nelas. Eu me perguntava, “porque estou ‘cozinhando’ aqui e aquele mar lindo brindando a me convidar”. Infelizmente a prova não permitia o banho, mas nada que impediu que eu molhasse minhas mãos e meu rosto e apenas admirasse… Do km25 ao km35 eram cascalhos e subidas e descidas intermináveis de entradas de praias que honestamente tiravam o folego.

No km35 ganhávamos nosso sinalizador piscante vermelho, pois a noite viria em breve. Meu objetivo era subir o último cume de 350m, atravessá-lo antes da noite chegar, e consegui. Era uma subida lenta e massacrante. Esses vales revelam a escassez. Eu via de longe alguns containers e sonhava que seria um posto de gasolina com algum Am/Pm para comprar uma coca-cola, mas não, aquilo não existia. O máximo que vi de vida durante toda a prova foram algumas cabras.

Ao descer de longe eu vi um castelinho, um mesmo que passamos pela praia na vinda, e imaginava que lá estaria o próximo PC. Cheguei ao pôr-do-sol, km45, sempre imagens lindas de contraste.

A noite enfrentaria novamente mais 8km de areia fofa até próxima subida, esta sim, que parede! Uma subida extremamente técnica e ao buscar a sinalização, percebia como meu suor escorria pelo meu corpo, mesmo à noite, no calor ainda muito forte. Em compensação se via uma lua cheia incrível, fora nossa iluminação pessoal. A lua parecia iluminar a ilha inteira, como um farol, um brilho inigualável.

Os kms finais foram em dunas de areais fofas, onde a neblina havia baixado e se via apenas as pegadas dos que haviam passado ali. Busquei seguir as marcas até alguém me alcançar e eu poder seguir na companhia. Logo apareceu um grupo de alemães e belgas e sem hesitar pedi para me unir e foi minha salvação até o final.

Concluí esta segunda etapa bem melhor que a primeira. Houve muitas desistências, muitos dizendo ter sido uma etapa dura, e realmente foi. O bonito era ver os staffs torcendo pela nossa chegada.

Foto: Cyrille Quintard
Foto: Cyrille Quintard

Terceiro dia

Terceiro dia seria o rest day. O dia para todos colocarem o corpo e os pés em ordem. Imagine a fila do SUS, o hospital parecia pior que isso. Tudo o que eu queria era um tape para minhas costas e me apavorei com a fila de bolhas. Todos com seringas e seguindo as instruções do médico que parecia um professor.

Realmente não haviam palavras para definir a equipe de médicos, que grupo! Acho que foi a primeira vez que vi uma equipe tão qualificada prestando tantos serviços em uma corrida, porque não pense que era um ou dois, eram uns 10 médicos mais uns 10 enfermeiros. Impressionante.

Quarto dia

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Foi a etapa mais rápida, uma leve subida até as formações vulcânicas e muita decida até o km 16. A travessia vulcânica foi novamente bem chata, com pedras enormes, praticamente impossível de correr, exigiu muita cautela, pois pisar em uma pedra e rolar seria bem clássico, obviamente tomei outro tombo.

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Foto: Rubén Fueyo

De qualquer maneira a prova se tornou interessante do km16 em diante, onde subimos um pico antes de chegar a Las Playitas. Lá de cima a vista foi bem incrível

No pico havia uma cruz e já se contemplava a chegada ao fundo. Não me importei muito com a exigência técnica e desci como um “graças a deus, terei um banho”. Nem sei como eu ainda tinha pernas para fazer um pace de 5’/km mas foi o que fiz em direção a chegada.

Recebi um abraço forte de alguém da organização quando conclui e segurei o choro. Acontece que nós criamos laços em 4 dias, impossível não se emocionar com toda a energia que se vivencia. Acaba-se por conhecer todos que estão ao nosso redor e não tem como não sentir o carinho imenso que todo mundo dedica a isso… Corredores, organizadores, médicos, etc.

Só posso dizer que foi maravilhoso, já até recebi inscrição para HMDS Peru, mas infelizmente não há bolso que aguente. Nem chefe.

Novamente agradeço o apoio da WAA em me convidar para ser do time LadyWAA e ter me oferecido essa experiência; complemento com a ajuda da Les Collines Store, TTR Club e Raidlight.

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