Arquivo da Categoria: Científico

Perfil do VO2 em atletas da corrida de aventura

Autor: Fernando Tadeu de Sousa Silva

Resumo
As atividades de aventura vêm sendo muito praticadas como lazer das pessoas no meio urbano. Este prática, em crescimento inclusive na área empresarial, vem a aproximar o homem da natureza e fazendo-o explorar novos desafios. O presente trabalho tem como objetivo geral, traçar o perfil de VO2 entre os atletas que participaram da Corrida de Aventura Carrasco (Cravo e Canela), entre 25 e 27 de novembro no ano de 2011, na cidade de Ilhéus, estado da Bahia.

O VO2 foi avaliado por meio da realização do teste submáximo segundo o protocolo de Katch e McArdle (1984) Foram submetidos ao teste 15 pessoas, todos do sexo masculino, com idade entre 24 e 43 anos. Entre os atletas avaliados, 12 possuíam mais de 5 anos no esporte e 3 menos que 3 anos. Foram encontrados valores de VO2 entre 47,8 ml/kg/min e 74,7 ml/kg/min, obtendo a média de 63,32 ml/kg/min.

O objetivo deste estudo foi traçar o perfil do VO2. Mesmo não sendo o objetivo, foi feito uma comparação se o valor encontrado influenciaria na ordem da chegada entre os competidores avaliados. Com os dados obtidos podemos verificar o perfil do VO2 dos participantes, avaliados, da Carrasco 2011 e também que não houve influência do percentual do VO2 entre os competidores, pois alguns que apresentaram maiores níveis de VO2 não concluíram a prova, na frente dos demais avaliados.

A formação de profissionais que atuam com esportes e atividades de lazer na natureza no entorno da cidade de Belo Horizonte/MG

Autor: Henrique Araújo

RESUMO

Amplia-se, no cotidiano brasileiro, a prática de esportes e atividades de lazer na natureza no entorno dos centros urbanos. O crescimento por esse tipo de vivência suscitou questionamentos: qual a formação dos profissionais que atuam com vivências de lazer na natureza no entorno de Belo Horizonte? O que eles entendem por lazer e quais são as suas percepções da natureza? De que maneira, como, quando e por que a temática do lazer integrou a sua formação e/ou sua atuação profissional? Foi necessário complementar a formação teórico-prática para atuar com esportes e atividades de lazer na natureza? Em caso afirmativo, de que maneira isso aconteceu ou vem sendo realizado?

Assim, esta pesquisa teve como objetivos:
(a) Identificar profissionais que atuam com esportes e atividades de lazer na natureza no entorno de Belo Horizonte/MG, procurando compreender como e por que eles optaram por esse campo de atuação;
(b) Discutir quais são as percepções da natureza e os entendimentos de lazer desses profissionais, e
(c) Analisar a formação desses profissionais, tendo em vista entender de que maneira, quando e por que a temática do lazer integrou esse processo.

Foi constatado que a formação dos profissionais entrevistados é diversificada, não se restringiu à formação acadêmica inicial e vem sendo complementada com variadas dimensões, tais como familiares, culturais e sociais. Verificou-se que o entendimento de lazer dos entrevistados, por um lado, evidencia características presentes em conceitos elaborados por autores, mas, por outro, reforça algumas características funcionalistas vigentes no senso comum.

A percepção do grupo quanto à natureza destaca a sua importância, mas ainda carece de um entendimento mais profundo acerca da integração do homem com o meio ambiente, visando à sustentabilidade. A temática do lazer integrou a formação e/ou atuação profissional do grupo de forma parcial, deixando algumas lacunas, por isso os entrevistados afirmaram que foi preciso complementar a formação para atuar com esportes e atividades de lazer na natureza. Grande parte dos profissionais pesquisados considera que, nesse campo, a prática é mais importante do que a teoria, evidenciando uma visão dicotômica que negligencia a indissociabilidade entre elas. Foi também evidenciado que, para o grupo, o conhecimento técnico é o mais relevante para atuar nesse âmbito. Apesar de ser importante, esse tipo de conhecimento pode ser ampliado e inter-relacionado com outros saberes essenciais para qualificar a formação e a atuação profissional. Espera-se que esta investigação seja mais uma contribuição para o estudo dos esportes e atividades de lazer na natureza, auxiliando a construção/consolidação desse campo.

Análise de variáveis fisiológicas e ambientais durante uma corrida de aventura

autor: Carlos Eduardo Guedes Vidal

Monografia apresentada ao Curso de Educação Física do Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH, como requisito parcial à obtenção do título de bacharel e licenciado em Educação Física.

Área de concentração: Saúde
Orientador: Ph.D Fabiano Trigueiro Amorim

1. Introdução
Criada na década de 1980, na Nova Zelândia, a Corrida de Aventura é uma competição que tem como objetivo percorrer uma distância pré-determinada realizando diversas modalidades esportivas como: mountain bike, trekking, canoagem, técnicas verticais, cavalgada, patins, dentre outras. As provas de corrida de aventura pode ser divididas em corridas de velocidade (<6 hoas), corridas intermediárias (6-12 horas), corridas longas (12-36 horas) e corridas de expedição (>36 horas). Os eventos de Corrida de Aventura podem exceder mais de 100 horas de duração levando os competidores ao limite da exaustão. Freqüentemente, os atletas competem por dias seguidos sem descanso e limitadas horas de sono. As equipes são formadas geralmente por 4 atletas sendo um integrante do sexo oposto (TOWNES, 2005). Vence a equipe que percorrer, sem dispersar, a maior distância ou todo os percursos programados, passando pelos postos de controle previamente estabelecidos pela organização da prova (ASHLEY et al., 2006; LUCAS et al., 2008).

O local específico das Corridas de Aventuras bem como o terreno que os atletas irão percorrer é disponibilizado poucas semanas antes da competição, tornando difícil a preparação específica dos atletas para o evento (FORDHAM; GARBUTT; LOPES, 2004).

Dentro de uma mesma equipe encontram-se atletas com diferentes aptidões físicas e técnicas (LUCAS et al., 2008). As demandas fisiológicas durante a competição são extremas, levando grande número de competidores a desistirem e abandonarem a prova (FORDHAM; GARBUTT; LOPES, 2004; ZALCMAN et al., 2007).

A corrida de aventura tem se tornado um esporte popular Greenland (2004) e a literatura atual disponível não contempla as características fisiológicas e ambientais ocorridas nas competições. Essa falta de informação é provavelmente devido ao seu desenvolvimento relativamente recente, aos locais remotos dos eventos, a falta de conhecimento prévio sobre o percurso e as limitações associadas com a coleta de dados no campo (LUCAS et al., 2008).

1.1 Objetivos

1.1.1 Objetivo Geral:

Analisar as variáveis fisiológicas e ambientais de atletas durante uma corrida de Aventura.

1.1.2 Objetivo Específico:

– Registrar e analisar a freqüência cardíaca dos atletas durante o percurso;
– Analisar o gasto calórico dos atletas durante a competição;
– Calcular a perda de massa corporal dos atletas;
– Registrar a ingesta alimentar dos atletas durante a corrida;
– Medir o estresse térmico durante a competição.

1.2 Justificativa

Com essa investigação esperamos identificar o estresse fisiológico que os atletas estão sendo submetidos e proporcionar subsidio para elaboração de treinamentos futuros e específicos para essa “recente” modalidade.

 

2. Desenvolvimento

2.1 Revisão de Literatura

2.1.1 Histórico da Corrida de Aventura

Inspirado nas corridas multi-esportivas realizadas na Nova Zelândia na década de 1980, o repórter francês Gerard fuzil, criou a primeira Corrida de Aventura, o Raid Gauloises (The Raid), considerada a primeira corrida oficial descrita. O evento foi realizado junto à natureza, onde equipes de atletas de ambos os sexos percorreram áreas remotas realizando modalidades esportivas como corrida de montanha, técnicas verticais, remo, orientação e mountain bike. (Adamson, 2004)

De acordo com sítio especializado (Adventuremag, 2000), a segunda corrida de aventura foi a Southern Traverse, em 1991. Posteriormente, em 1995, Mark Burnett, empresário e competidor das duas edições anteriores do The Raid, criou o Eco-Challenge e firmou uma parceria com o Discovery Channel para transmitir o evento em todo o mundo. O primeiro Eco-Challenge aconteceu no estado de Utah, nos Estados Unidos da América, e conseguiu atrair a atenção de patrocinadores e novos adeptos do esporte. Desde então, o Eco-Challenge foi realizado na Colúmbia Britânica, Marrocos, Argentina, Malásia, Nova Zelândia e a mais recente edição aconteceu em Fiji, em 2002.

Recentemente, tem havido um aumento na popularidade de Corridas de Aventura nos Estados Unidos e em todo o mundo, com o número crescente de eventos e de participantes a cada ano, principalmente eventos mais curtos de 1 a 2 dias de duração. (Townes et al., 2004)

No Brasil, a corrida de aventura surgiu após Alexandre Freitas ter participado de uma edição do Eco-Challenge (1997). Alexandre Freitas criou a Sociedade Brasileira de Corridas de Aventura (SBCA), organizadora da primeira Corrida de Aventura brasileira, denominada Expedição Mata Atlântica – EMA. A primeira edição da EMA aconteceu em 1998, com duração de 3 dias e um percurso de 220 km de distância. Nesse mesmo ano, o Brasil foi representando pela primeira vez no Eco-Challenge com a equipe mineira Brasil 500 anos (ADVENTUREMAG, 2000). No ano de 1999 a EMA se deslocou do litoral norte para o litoral sul de São Paulo e aumentou de tamanho, passando a ter um percurso de 400 km e até 5 dias de duração (ADVENTUREMAG, 2000).

Com a popularização do esporte no país, começaram a surgir vários eventos, possibilitando um número maior de pessoas ingressarem no esporte. As corridas com 1 ou 2 dias de duração possibilitaram a participação dos atletas de final de semana que não dispunham de tempo e recursos financeiros para o treinamento e competição sistematizados (ADVENTUREMAG, 2000).

Atualmente a maior Corrida de Aventura no Brasil é o Ecomotion-Pro, que teve sua ultima edição realizada em outubro de 2008 nos Estados do Ceará, Piauí e Maranhão. A corrida teve um percurso de aproximadamente 530km e até 6 dias de duração (ECOMOTION, 2008).

2.1..2 Parâmetros fisiológicos da Corrida de Aventura

2.1.2.1 Características dos Atletas

Alguns estudos apresentaram as características físicas e fisiológicas dos atletas de Corrida de Aventura. Em estudo realizado por Ashley et al. (2006), antecedendo uma prova de 300 milhas, os autores analisaram 86 atletas de corrida de aventura e demonstraram a presença de um grupo com características físicas e fisiológicas heterogêneas. Esse estudo descreveu desde atletas profissionais com baixo percentual de gordura e excelentes condições cardio respiratórias a esportistas com elevado percentual de gordura, e condições cardio respiratórias normais assemelhando-se a atletas recreacionais.
Na etapa do mundial de Corrida de Aventura, de 2003, na Nova Zelândia, foram traçados o perfil das características de 12 atletas, 4 atletas da elite mundial, 4 atletas intermediários e 4 atletas novatos (Tabela 1).

Nesse estudo, mais uma vez, confirma que dentro de uma mesma competição é encontrado perfis variados das características dos atletas participantes.

Durante uma simulação, em laboratório, de uma Corrida de Aventura baseada nas distâncias da prova internacional Ecomotion Pro 2003 (477 km), foram coletadas as medidas antropométricas e VO2pico de 7 atletas. Verificaram-se as seguintes médias: 31 anos, 75,4 kg, 174,7cm de estatura, 13,5% de massa gorda, 24,7, VO2pico na bicicleta de 54,7ml.Kg-1, VO2pico na corrida de 54,9ml.min-1.kg-1. (ZIMBERG et al., 2008). Embora foi relatado o percentual de gordura dos voluntários, a interpretação deste resultado deve ser cuidadosa já que a amostra foi composta de homens e mulheres. Um dado curioso deste estudo, foi que a medida de VO2pico não foi diferente entre o teste realizado na esteira ou na bicicleta.

Num quarto estudo que tinha como objetivo verificar os escores referentes à escala de dependência de exercício, qualidade de vida, bem como os escores indicativos de humor em atletas de corrida de aventura, 17 atletas de ambos os sexos com histórico de prática da modalidade de pelo menos três anos, com experiência em provas nacionais e internacionais e que figuram nas primeiras posições do ranking brasileiro apresentaram a seguintes características (média ± desvio-padrão):  da idade 31,11 ± 6,30 anos; estatura 1,73 ± 0,07cm; massa corporal 70,75 ± 7,96kg; índice de massa corpórea (IMC) 23,48 ± 1,48kg/m2; e consumo de oxigênio de 58,70± 6,63ml.min-1.kg-1 (ZIMBERG et al., 2008).

De acordo com os estudos acima, os atletas de corrida de aventura apresentam perfis variados podendo, numa mesma competição, participarem atletas profissionais em condições físicas de atletas de elite de outras modalidades e indivíduos com pouca experiência e não tão bem condicionados, demonstrando um perfil bastante heterogêneo desta modalidade esportiva.

 

2.1.2.2 Respostas cardiorespiratórias durante a prova

Em um estudo realizado durante a Transalp Challenge 2004, uma maratona de 8 dias de Mountain Bike, demonstrou que durante o percurso de 662km a média da frequência cardíaca (FC) dos atletas foi de 85% da FC máxima e em 36% do total do percurso foi mantido em zona de alta e muito alta intensidade, maior que 90% FC máxima. O estudo mostrou que esta corrida é fisiologicamente muito exigente, que envolve tanto o sistema de energia aeróbia quanto anaeróbia (WIRNITZER e KORNEXL, 2008).

Em um único artigo publicado na literatura descrevendo uma prova de Corrida de Aventura, Lucas et al. (2008) analisou a FC média durante a corrida internacional Southern Traverse. O percurso consistiu de 411 Km, com duração de 5 dias (120 horas), dividido em 14 fases aleatórias de trekking (3, 27, 70, 14 km), kayaking (22, 35, 25, 28 km), mountain bike (50,52, 40, 17 km), e coasteering (16, 12 km) realizado na Nova Zelândia.  A temperatura ambiental variou entre 5,2ºC e 22,3ºC. A freqüência cardíaca (FC) média de 12 atletas durante a corrida foi de 64% da FC máxima caindo para 41% nas 24 horas subseqüentes a prova e que em 80% do tempo da competição a freqüência cardíaca manteve-se abaixo de 60% da FCmáx. Estes dados estão representados na figura 1.

 

 

Como podemos observar, com o único dado disponível na leteratura atual, as respostas cardio respiratórias são baixas caracterizando uma atividade de média intensidade durante os cinco dias de provas, com picos esporádicos de FC elevadas, podendo ser mais facilmente observado no início da competição.

2.1.2.3 Desidratação durante esporte de ultra-resistência

Em estudo realizado por Townes et al. (2004), em 248 corredores, durante a  corrida de Aventura de nível internacional (Subaru Primal Quest Expedition Adventure Race™), envolvendo corrida, mountain bike, canoagem, técnicas verticais e orientação realizada no Estados Unidos em julho de 2002, os autores descreveram incidência de lesões e de doenças ocorridas ao longo dos 380 km de percurso. A temperatura diária média foi de 26.6°C com variações de 24–28°C. A temperatura mínima média foi de 12°C (53.9°F) com uma variação entre 9–16°C. A umidade média foi de 48.9% variando de 38.0–62.0%. Curiosamente, o estudo reportou que 25% das desistências e abandonos da prova foram atribuídas a desidratação.

As corridas de aventura se assemelham pela sua duração com provas de ultra-resistência. Segundo revisão de literatura de Murray (1996), mesmo baixos níveis de desidratação (por exemplo, menos de 2% de perda de peso corporal) podem prejudicar o sistema cardiovascular e a resposta termorregulatória e reduzir a capacidade de realizar exercício. O calor também reduz a capacidade do atleta de treinar e competir, um efeito que pode ser independente do estado de hidratação. Mesmo que os atletas estejam bem hidratados, clima quente, por si só, pode reduzir o desempenho. O ótimo desempenho só é possível quando a desidratação e a hipertermia são minimizados através da ingestão de adequados volumes de fluidos durante o exercício. Recentes pesquisas têm demonstrado que o consumo do volume de fluidos aproximado ao volume da perda de suor mantém importantes funções fisiológicas e melhora significativamente o desempenho exercício, mesmo durante o exercício durando apenas 1 hora.

De acordo com Antunes (2006), a Corrida de Aventura é uma prova bastante exigente que associa não apenas um bom condicionamento físico, mas também um grande componente cognitivo, planejamento e a capacidade de trabalhar e permanecer em grupo. Além disso, durante toda a prova, os atletas são submetidos às mais diversas situações que variam desde alterações ambientais severas (calor, frio), privação do sono, cansaço, fadiga e até a redução do consumo alimentar e hídrico.

Segundo Kao et al. (2008), em estudo realizados em ultramaratonas de 12h e 24h, demonstrou que a perda hídrica em relação ao peso corporal foi de 2,8% nas corridas de 12h e de 5% na de 24h e em 26% dos atletas chegou a exceder  7% do peso corporal. Ele também ressalta que todos os atletas que tiveram um bom desempenho correndo mais de 200km nessa prova tiveram desidratação superior a 7% do peso corporal. Em ambas as ultramaratonas as diminuições de peso ocorreram principalmente durante as primeiras 8 horas, com o mais rápido declínio ocorrido entre 0 e 4 horas. Na ultramaratona de 24h, uma perda de peso considerável ocorreu entre 16 e 20 horas. Embora nenhum estudo anterior tenha medido o nível de desidratação durante uma prova de Corrida de Aventura, por suas características pode-se prever uma alta incidência de indivíduos desidratados.

 

2.1.2.4 Gasto Energético

De acordo com Zimberg et al. (2008), durante as Corridas de Aventuras, os atletas têm múltiplas áreas de transições para que os seus equipamentos e suprimentos nutricionais sejam fornecidos pela equipe de apoio. Devido as diferentes modalidades esportivas envolvidas, a distância de cada percurso, o relevo das provas, a estratégia de cada equipe e as exigências nutricionais variam entre os eventos.

Durante a simulação de uma Corrida de Aventura, em laboratório, o gasto energético foi estimado baseando-se no consumo de oxigênio. Este foi estimado a partir dos batimentos cardíacos registrados por monitores cardíacos, utilizados pelos atletas durante a corrida. A média de ingestão energética foi de 14.738 kcal e um gasto de 24.516 kcal, resultando em um déficit energético de 9.779kcal. A média do gasto de energia por hora de atividade foi de 365 kcal. (Zimberg et al., 2008)

Estudo realizado durante a corrida de ultra-resistência, Race Across América, em 2003, o gasto energético foi registrado continuamente, por monitor de freqüência cardíaca. Observou-se que o campeão dessa competição teve um gasto calórico total de 179.650 kcal e sua ingestão total foi de 96.124 kcal evidenciando uma deficiência de 83.526kcal ao final dos dez dias de prova (KNECHTLE; ENGGIST; JEHLE, 2005).

2.2 Metodologia

2.2.1 Amostra
Foram selecionados 9 atletas de Corrida de Aventura, competidores há mais de 3 anos: 5 do sexo masculino e 4 do sexo feminino. Foram excluídos da análise 3 atletas, por não completar a prova e apresentarem problemas com o Monitor de Freqüência Cardíaca (MFC) e nos registros dos inquéritos alimentares durante a competição. Portanto, os voluntários analisados foram 4 do sexo masculino e 2 do sexo feminino com média de idade de 30 (±3,1)anos, estatura 169 (±7,0) cm, peso 66,40± (10,6) kg.

2.2.2 Instrumentos
Para o registro da freqüência cardíaca (FC) foi utilizado o MFC da marca Polar ® modelo AXN 500, que registrou a FC a cada 60 segundos.
A massa corporal foi medida utilizando-se uma balança digital marca Sanitas, modelo SBG 20, com limite de 150 kg e escala de graduação de 0,1 kg. Os voluntários foram pesados descalços, vestindo apenas a camiseta e a bermuda, que apresentam peso médio de 320 grs, medida esta realizada em uma balança digital Plenna, modelo Grey, com capacidade de 2 kg e graduação de 1gr.

A estatura foi obtida com a utilização de uma trena marca Tramontina, de 3m, graduação de 1cm, modelo 43150/303, estando o voluntário descalço encostados na parede sem rodapé.
Foram mensuradas 9 dobras cutâneas utilizando plicômetro Cescorf com graduação de 1mm.

A condição térmica do ambiente da prova foi medida através de um monitor de estresse tremico (Metrosonic HS3700). Este equipamento mede a temperatura seca, úmida e de globo, e permite o cálculo do índice do Bulbo Úmido, Seco e Termômetro de Globo (IBUTG).

Para o cálculo da ingestão das calorias totais foi utilizado o software Diet Pro® 4.0.

2.2.3 Procedimentos
Inicialmente foram selecionados 9 atletas, praticantes a mais de 3 anos da modalidade para participarem do estudo. Os atletas foram previamente contatados por telefone para que se pudesse saber se atenderiam às condições necessárias à pesquisa. Foram dadas explicações detalhadas dos procedimentos do estudo e sondado o real interesse na sua participação.
O estudo foi executado durante a primeira etapa do Circuito das Grutas, valendo pelo ranking Brasileiro de Corrida de Aventura. A corrida foi realizada na cidade de Sete Lagoas -MG, e municípios adjacentes, em 21 de março de 2009. Seu percurso completo teve distância aproximada de 200 km divididos em 8 trechos, Mountain Bike (6, 50, 80 km), Trekking (5, 40, 12 km), Canoa Canadense (7 km) e Bike and Roller (5km). Cada trecho foi separado por uma zona de transição para troca de modalidade onde a equipe recebia alimento e suporte de uma equipe de apoio. As anotações de quantidades dos alimentos e líquidos ingeridos, bem como da temperatura local foram realizadas nessas áreas de transição.
Os voluntários que foram selecionados e aprovados para participarem da pesquisa, assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido (ANEXO A).

Para as avaliações do VO2max, utilizou-se um teste de campo de acordo com o protocolo corrida de campo de 1 milha e meia duas semanas antecedentes à prova. Também foram medidas a altura, massa corporal e pregas cutâneas. Foram utilizadas as nove e as medidas foram realizadas de acordo com Jackson e Pollock (1985).Os valores de dobras obtidos foram somados e os resultados estão apresentados na tabela1.

A massa corporal também foi medida antes da largada e logo após o término da prova e os voluntários foram orientados a esvaziar as bexigas. Após serem pesados, antes da largada, cada atleta recebeu um monitor de freqüência cardíaca, que foi instalado pelo pesquisador, além de receberem orientações para manter o equipamento no local ajustado. O relógio foi travado para evitar acionamentos desnecessários. O MFC foi instalado no tórax, na altura do processo xifóide do esterno, em cada atleta, pelo pesquisador e o relógio no punho de preferência do atleta.

Ao término da competição, na linha de chegada, à medida que cada atleta chegava era abordado pelo pesquisador, o MFC era retirado do tórax dos atletas. Os dados gerados pelos MFC’s foram transferidos para um computador e analisados pelo software Polar Pro Trainer 5®. Este software, dentre inúmeras informações, apresenta a FC máxima e a FC média durante todo o tempo de uso e em cada zona ou faixa de esforço, registrada a cada 60 segundos em tabela numérica e visualizado em gráfico com separação de zonas de esforço.
Cada atleta, nas áreas de transição, relatava o que haviam ingerido durante o percurso bem como o total de líquidos ingeridos. Para cálculo da ingestão das calorias totais foi utilizado o software Diet Pro® 4.0, e o líquido ingerido era calculado pela diferença entre o líquido levado em reservatório graduado (Camelback®) e o retornado. A temperatura do local de prova foi medida a cada hora do dia.

2.2.4 Análise estatística
A análise estatística foi feita de forma descritiva, caracterizando a amostra em função das variáveis selecionadas. Os resultados serão apresentados em gráficos, tabelas e texto dissertativo.

2.2.5 Cuidados éticos
Foram tomados cuidados éticos inerentes a um trabalho de pesquisa de campo. Todos os voluntários foram informados sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa. Os princípios do anonimato e da voluntariedade da participação dos envolvidos neste estudo serão plenamente respeitados.

 

3. Resultados

As características antropométricas dos participantes deste estudo estão representadas, de forma descritiva, na Tabela 2.

 

Seis atletas concluíram o percurso completo (aproximadamente 200km) da competição. Os atletas 1, 2, 3 e 4  pertencentes à mesma equipe gastaram 24 horas e 43 miutos e os atletas 5 e 6 completaram em 19 horas e 32 minutos e 28 horas 20 minutos, respectivamente.
A temperatura ambiental medida a cada horas através do termêmotro de bulbo úmido (WB), bulbo seco (DB) e temperatura de globo (GT) estão apresentadas no Gráfico 2.

 

 

No Gráfico 3, temos o percentual do tempo de permanência em determinadas zonas de esforço (FC) dos participantes do estudo, de acordo com faixas pré-estabelecidas pelo software Polar Pro Trainer 5 ®.

 

Em média foram ingeridas 5651 kcal durante o percurso total de prova, onde 80% dessas calorias foram obtidas a partir dos carboidratos, 6% das proteínas e 14% das gorduras, podendo ser observado com mais detalhes na tabela 3.

 

Os 6 atletas tiveram um gasto calórico superior a quantidade de calorias ingeridas durante o percurso, criando um déficit de aproximadamente 7597 kcal. A ingestão média foi de 43% do total de kcal despendidas. Estas informações podem ser visualizadas na figura 4 e figura 5.

 

Na tabela 4 podemos observar as quantidades de líquidos ingeridos pelos participantes e  no gráfico 6 a perda de massa corporal ao final da prova.

 

 

4. Discussão

Esse é o primeiro estudo em campo, realizado no Brasil, que analisou a variáveis fisiológicas e ambientais durante uma corrida de aventura real. Os principais achados deste estudo são os seguintes: aproximadamente 50% do tempo total de exercício foi realizado numa intensidade de exercício acima de 70% da FC máxima; embora as condições térmicas do ambiente não foram extremas os atletas apresentaram durante a prova diferenças no peso coporal de menos de 1 kg a 4,5kg aproximadamente; e a ingesta calórica total não foi suficiente para suprir metade das calorias gastas na prova.

Podemos observar que a FC analisada  durante a competição demonstrou uma intensidade média de esforço, ficando 75% do tempo abaixo dos 80% da intensidade máxima, esses mesmos achados são apresentados em outro estudo (LUCAS et al., 2008). Uma justificativa seria a incapacidade de manter níveis elevados de intensidade longas horas contínuas de atividade.

Durante a corrida de aventura analisada mediu-se as temperaturas no transcorrer da competição e a partir delas podemos perceber provável interferência destas na perda de líquidos corporais para manutenção da temperatura corpora e massa corporal. No presente estudo podemos observar que o atleta que mais apresentou perda de massa corporal foi o que menos líquidos  ingeriu e curiosamente foi o que demorou mais tempo a completar a prova, dentre os atletas estudados.

Em estudos sobre atividades de ultra-resistência uma conclusão comum é a constatação de uma elevada perda de massa corporal após a competição (MURRAY, 1996; KAO et al., 2008). Embora não exista dado específico sobre perda de massa corporal durante corrida de aventura, o presente estudo apresentou  similaridades nesse aspecto, com perdas de até 4,5kg da massa corporal nos atletas.

A ingestão de nutrientes durante a competição foi em média 5651Kcal e o gasto energético 13248Kcal criando um déficit de 7597Kcal, 43%, esse fato é encontrado em outro estudo, Zimberg et al. (2008) demonstra que durante simulação de uma corrida de Aventura os atletas também tiveram déficit  na ingestão calórica, 40%.  A ingestão de carboidratos pelos atletas foi em média 80% apontando para uma tentativa de manter as reservas de glicogênio e o prolongamento do exercício físico, ao contrario da conclusão do estudo de  Zimberg et al. (2008) que evidenciou uma ingestão inadequada de carboidratos e uma alta quantidade de proteína e gorduras.

A média dos níveis de VO2 dos atletas encontrados no presente estudo  foram de 53,3ml.min-1.kg-1 e valores bem parecidos 53,9ml.min-1.kg-1 foram descritos na literatura (LUCAS et al., 2008). O perfil antropométrico se assemelha a estudos existentes,  caracterizando uma classe heterogenia de competidores na Corrida de Aventura(LUCAS et al., 2008).

Foi um trabalho difícil de ser realizado devido a dificuldade da logística da prova. Lugares de difícil acesso e trajeto revelado horas antes do início da competição dificultam um plano de ação nas coletas de dados. A falta de um número maior de equipamentos como cardiofreqüêncímetros, limitaram o n amostral.

 

5. Conclusão

As informações obtidas no presente estudo podem contribuir para melhorar  a compreensão das necessidades  nutricionais dos atletas durante uma Corrida de Aventura, uma vez constatado que a ingesta calórica ao longo da prova representa aproximadamente 1/3 da demanda energética de cada atleta durante a competição.

Os valores da FC registrados durante a primeira etapa do Circuito das Grutas 2009, mostrou que esse evento de ultra-resistência é fisiologicamente muito exigente e envolvendo sistemas energéticos diferentes.

Esses resultados podem ser úteis para a concepção adequada de programas de treinamento e desenvolver específicas intervenções nutricionais para manter as demandas físicas e fisiológicas nesse tipo de evento.

 

REFERÊNCIAS

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GREENLAND, K. Medical support for Adventure Racing. Emergency Medicine Australasia, Vol. 16, p.465–468, Jul. 2004.

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Qualidade de vida em corredores de aventura

autor: Rodrigo Lacerda Alves

RESUMO
O presente estudo teve como objetivo conhecer e avaliar a qualidade de vida dos praticantes de corrida de aventura do estado de Sergipe. Foram avaliados 17 sujeitos com média de idade média de 29 + 6,33 anos. Os dados foram coletados por meio dois questionários: CCEB – Critério de Classificação Econômica Brasil, questionário organizado pela ABEP objetivando a classificação do grupo conforme o nível socioeconômico; e o WHOQOL BREF, elaborado por Organização Mundial de Saúde (OMS), o qual contempla os domínios: físico, psicológico, social e meio ambiente. Os resultados indicaram que 100% da amostra avaliaram sua qualidade de vida como boa ou muito boa, e que 79% encontram-se satisfeitos ou muito satisfeitos com a saúde. Quanto aos escores do WHOQOL-BREF, o domínio físico apresentou escore mais alto 82,14 +11,71, enquanto o domínio psicológico apresentou escore mais baixo 68,62 + 8,48.

Palavras- chave: Qualidade de vida, WHOQOL-BREF, nível sócio econômico, corrida de aventura.

1 INTRODUÇÃO

As modalidades de aventura na natureza têm crescido muito nos últimos anos, e popularizam-se sob a forma de esportes de aventura  e ecoturismo. Enquanto o primeiro caracteriza-se por serem praticados tanto na forma de aventuras individuais quanto de maneira competitiva; o segundo vem sendo explorado por empreendimentos comerciais. (SPINK, 2005)
É interessante atentar que ambos utilizam a natureza como pano de fundo para suas atividades, porém no ecoturismo a segurança, equipamentos e conhecimentos específicos ficam a cargo dos instrutores que conduzem a atividade, e nos esportes de aventura esses fatores devem ser controlados pelos próprios praticantes (ZIMMERMAN, 2006).

Dentre os esportes de aventura, destaca-se a Corridas de Aventura (CA), modalidade que mescla, numa só competição, diversos esportes de aventura: mountain bike, canoagem, natação, treeking , orientação, técnicas verticais, entre outros. Segundo Ferreira (2003) CA é uma forma de competição em que participam equipes mistas, composta de atletas de ambos os sexos, dispostas a cumprir as regras para alcançar um objetivo em menor tempo possível, exigindo o máximo de resistências físicas e mentais.

Outro fator determinante nas CA’s é a navegação. Os atletas devem estar aptos a se orientarem em locais pouco explorados da natureza, apenas com o auxílio de bússolas e dos mapas topográficos fornecidos pela organização da corrida.  Nesses mapas estão destacados os  PC’s  e AT’s . As equipes devem escolher o caminho a ser seguido para atingir esses pontos, ou seja, o percurso da prova não é determinado cabendo a equipe optar pelo melhor trajeto.

A CA surgiu na Nova Zelândia nos anos 80 e rapidamente se espalhou para outros continentes como a América e Europa. No Brasil a primeira corrida aconteceu em 1998, idealizada pelo paulista Alexandre Freitas que após ter participado de uma prova na Nova Zelândia, voltou ao Brasil e realizou a Expedição Mata Atlântica (EMA) em que o conceito era unir esporte, aventura e preservação ambiental. (FERREIRA, 2003).

Inicialmente as CA’s envolviam mais de dez dias de duração, e distancias chegavam a 500 km, eram verdadeiros ralis humanos.   Com a popularização do esporte surgiram corridas com distancias menores entre 50 a 200 km, também foi alterada a formação das equipes que passou a permitir trios, duplas e a categoria solo, individual.

As corridas de aventura caracterizam-se por unir o forte componente físico mental e cognitivo, levando o indivíduo a testar ou mesmo redefinir os próprios limites. É necessário além de conhecimento técnico das diversas modalidades que compõe a corrida, um ótimo nível de treinamento físico para suportar longos períodos de exercício. Durante as corridas os praticantes ficam privados de sono, de uma boa alimentação, muitas vezes com hidratação inadequada, e ainda enfrentam condições adversas de clima e de relevo. A capacidade de suportar um intenso desgaste psicofísico e um bom planejamento é fundamental para um bom desempenho na prova.

Nesse sentido as corridas de aventura inauguram uma nova abordagem de competição esportiva, rompendo com os esportes tradicionais.  A formação de equipes mista, em que homens e mulheres competem na mesma categoria é uma das inovações desse esporte.

Para Ferreira (2003) o surgimento desse tipo de competição está relacionado com as transformações sociais que emergiram com maior intensidade a partir dos anos 80, rompendo com o paradigma racionalista da modernidade que apontava para um desenvolvimento linear e ilimitado para a condição humana.  Para esse autor vivemos um período em que a perda de valores e mudanças no estilo de vida da sociedade possibilita ressignificar alguns conceitos. Assim, o conceito de competitividade e natureza ganha diferentes formas e manifestações nas corridas de aventura.

Spink et al (2005) afirma que o trabalho em equipe, a resistência, o espírito de aventura, a compaixão e a consciência ecológica são os ingredientes principais das CA’s. Para Ferreira (2003) o compartilhar de novos sentimentos e emoções denota a possibilidade de transformações no que se refere a forma de relacionamento entre os indivíduos.

A consciência ecológica aliada à responsabilidade social são elementos marcantes nessas competições. O respeito à natureza e ao ser humano se faz presente através de ações ambientais e sociais que visam apoiar as comunidades locais e o meio ambiente. É comum durante a corrida uma tarefa em que seja realizada uma ação efetiva em apoio aos moradores da região onde acontece a prova.

Tahara e Schwartz (2003) apontam que as atividades de aventura na natureza podem levar a uma melhoria na qualidade de vida de seus praticantes, porém não foi encontrado nenhum estudo que associasse corrida de aventura e qualidade de vida, visto que muito tem se falado a respeito das mesmas, porém poucos são os estudos científicos que interrogam e investigam o esporte.
De acordo com Fleck (1999) o termo qualidade de vida tem sido utilizado na área médica, como sinônimo de “condições de saúde” e “funcionamento social”, estando centrado na percepção subjetiva dos pacientes sobre o estado de saúde e sua capacidade de viver plenamente.

Seidl e Zannon (2004) afirmam que buscando conceituar qualidade de vida devem-se considerar dois aspectos: subjetividade, relacionada com a percepção da pessoa sobre o seu estado de saúde e sobre os aspectos não-médicos do seu contexto de vida; e multidimensionalidade, referindo ao reconhecimento de que a qualidade de vida deve ser avaliada por diferentes dimensões. Nesse sentido o termo qualidade de vida é mais amplo e envolve diferentes dimensões como física, psicológica, social e ambiental; incluindo, porem não se limitando às condições de saúde.

O grupo Qualidade de vida da OMS definiu qualidade de vida como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. (ORLEY e KUYKEN, 1994)

Diante do exposto surgem alguns questionamentos como: será que a corrida de aventura pode interferir positivamente na qualidade de vida de seus praticantes?  Ou será que diante das adversidades de uma corrida somado ao estresse físico e mental pelo qual os corredores sofrem a percepção de qualidade de vida pode ser prejudicada?
Partindo destas colocações, o presente estudo tem como objetivo identificar a percepção de qualidade de vida dos praticantes de Corrida de Aventura do Estado de Sergipe.

2 METODOLOGIA

Este trabalho caracteriza-se como do tipo descritivo, porque objetiva conseguir informações e/ou conhecimentos acerca de um problema a partir da observação em campo (THOMAS; NELSON; SILVERMAN, 2007).

Para o levantamento das informações necessárias a efetivação do trabalho foi compelido um instrumento composto por dois questionários, a saber: CCEB – Critério de Classificação Econômica Brasil questionário organizado pela ABEP objetivando a classificação do grupo conforme o nível socioeconômico; e o WHOQOL BREF, questionário elaborado por Organização Mundial de Saúde (OMS) e validado no Brasil por Fleck et al (2000).

O WHOQOL BREF é a versão abreviada do WHOQOL 100, sendo composto por 26 questões, sendo 24 questões que representam os quatro domínios que compõem o instrumento original: Domínio físico, focalizando as seguintes facetas: dor e desconforto, energia e fadiga, sono e repouso, atividades da vida cotidiana, dependência de medicação ou de tratamentos, capacidade de trabalho; Domínio psicológico, cujas facetas são: sentimentos positivos, pensar, aprender, memória e concentração, auto-estima, imagem corporal e aparência, sentimentos negativos, espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais; Domínio relações sociais, que inclui as facetas a seguir: relações pessoais, apoio social, atividade sexual; Domínio meio ambiente, abordando as facetas: segurança física e proteção, ambiente no lar, recursos financeiros, cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade, oportunidades de adquirir novas informações e habilidades, participação em, e oportunidades de recreação/lazer, ambiente físico: poluição, ruído, trânsito, clima, transporte. (FLECK  et al, 2000)

Além dos quatro domínios, o instrumento apresenta mais duas questões: uma relacionada à auto-percepção da qualidade de vida e a outra se refere à satisfação com a saúde. Deve-se ressaltar que optamos por analisar separadamente a questão “3” do WHOQOL BREF, visando averiguar de que maneira o desgaste físico causados nas corridas poderia interferir na percepção da qualidade de vida de seus praticantes.

A população foi composta pelos participantes de uma Corrida de Aventura realizada em agosto de 2008 na região onde está localizado o Parque Estadual da Serra de Itabaiana em Sergipe. A prova de 55 km, envolvendo trekking, orientação, rapel, mountain bike e canoagem foi intitulada “Sergipe Adventure”.

Segundo a organização da prova a competição contou com o total de 136 inscritos, em duplas e quartetos de em equipes masculinas, femininas e mistas.  Participaram desse estudo 17 voluntários, (12,5% da população) e como fator de inclusão foi considerado com tempo de prática mínima de um ano.

O procedimento para obtenção e registro das informações seguiu os seguintes passos: 1.contato com a Organização da Sergipe Adventure informando o motivo da pesquisa e solicitando o contato dos competidores através de email e telefones; 2.contato com os competidores objetivando o preenchimento do questionário do estudo. Assim os participantes da pesquisa foram orientados a responder todas as questões optando sempre pela alternativa que mais se aproximasse de sua condição, opinião ou atitude; ser totalmente honesto em suas respostas; não escrever seu nome ou qualquer identificação pessoal.

Para a análise das informações levantadas, foram utilizados os elementos da estatística descritiva e as especificidades dos instrumentos utilizados no Estudo.

3 RESULTADOS

Os resultados apontaram que os participantes desse estudo (sendo 12 do sexo masculino e 5 do sexo feminino) possuem  média de idade de 29 + 6,33 anos.

O nível sócio econômico do grupo, avaliado através do CCBE que leva em consideração a escolaridade e a posse de itens, pode ser melhor visualizado na Figura 1.

 

Em relação ao esporte que mais praticam, ou que praticam com maior freqüência foram observados mountain bike, treeking, corrida de rua, surf, natação ciclismo conforme Figura 2

 

Os resultados da questão 1, relacionada à percepção de qualidade de vida pode ser observado na Figura 3.

 

A questão 2, relacionada com a satisfação com a saúde pode ser observada na Figura 4.

 

A questão 3 (Figura 5) do WHOQOL- BREF refere-se a o quanto a  dor física impede de realizar as atividades diárias

 

dados do WHOQOL- BREF estão apresentados na Tabela 1. É importante destacar que o WHOQOL não prevê que se possa utilizar o escore global de qualidade de vida, assim, foi calculado separadamente o escore de cada domínio: físico, psicológico, social e meio ambiente. O valor mínimo de cada escore é zero, sendo 100 o valor máximo.

O escore de cada domínio é obtido numa escala positiva, isto é, quanto mais alto o escore melhor a qualidade de vida naquele domínio. Considera os valores entre 0 a 40 como ‘região de fracasso’ de 41 a 70 correspondendo a ‘região de indefinição; e acima de 71 como tendo atingido a ‘região de sucesso’. (NUNES e FREIRE, 2006)

4 DISCUSSÃO

Em relação à escolaridade, 70,5% da amostra estão cursando ou já concluíram o Ensino Superior. Ferreira et al (2008) em seu estudo com corredores da aventura da cidade de Florianópolis relatou que 81,8 % dos participantes possuíam escolaridade acima do segundo grau completo, enquanto que  Antunes et al (2006) relatou que 100% da amostra possuem escolaridade nessa situação.

Observamos que a maior parte da amostra (65%) pertence ao nível sócio-econômico “B”, seguido por 23% categorizado como “A”, e apenas 12% pertencentes à classe C. Considerando que segundo a ABEP (2005) apenas 30 % da população brasileira encontram-se entre a classe A e B, nota-se que as corridas de aventura são restritas às classes econômicas mais privilegiadas da população.

Percebe-se que os valores aqui encontrados foram semelhantes aos valores relatados por Antunes et al (2006) em pesquisa realizada com atletas brasileiros; A=58,82%; B=29,41%; C=11,76%.

Nesse sentido concordamos com Ferreira (2003) quando cita que mesmo que as corridas de aventura tenham sua popularidade aumentada, isso não significa dizer que há democratização com relação ao acesso a essas atividades, que continuam sendo elitistas e demandam um grande investimento para sua prática.

A maior parte dos entrevistados (65%) pratica regularmente algum espore de aventura, porém percebe-se que a CA tem despertado o interesse até mesmo daqueles que não tem no esporte de aventura a sua preferência, visto que 35% da amostra relataram ter preferência pelos esportes tradicionais tais como: corrida de rua, natação e ciclismo.

É consenso na literatura a afirmação que a qualidade de vida depende de uma análise pessoal e subjetiva, porém essa análise subjetiva tende a ser influenciada tanto por mecanismos sociais de resignação e de baixa expectativa causados pela pobreza crônica, como pelo seu inverso, isto é, a insatisfação frente à febre de consumismo desenfreado e ascendente, marca da sociedade pós-industrial. (PIRES et al, 1998). Mesmo considerando essa possibilidade temos que 83% consideram sua qualidade de vida boa, enquanto o restante (17%) considera sua qualidade de vida muito boa. Não tivemos respostas que se enquadrassem nos itens nem ruim nem boa, ruim e muito ruim.

Observou-se que 59% dos sujeitos observados encontram-se “satisfeitos” com a saúde, 23% encontram-se “muito satisfeitos” e 18% encontram-se “nem satisfeito nem insatisfeito”. Sabe-se que muitos problemas de saúde são provenientes da inatividade física, assim um bom nível de aptidão física parece ser imprescindível aos corredores de aventura exercendo influencia positiva na percepção de saúde. Porém é necessária uma investigação mais dirigida a esse aspecto a fim de relacionar diretamente percepção de saúde com nível de aptidão física.

Quanto a terceira questão do WHOQOL, que procura investigar o quanto a dor física impede o sujeito de realizar as atividades diárias, encontramos o percentual de 41% que relataram “nada”, 35% relataram “muito pouco” e 24% relataram “mais ou menos”. Deve-se ressaltar que buscamos analisar separadamente essa questão com a intenção de saber se o estresse físico e as possíveis lesões decorrentes do exercício físico intenso poderiam prejudicar os praticantes nas atividades diárias, porem diante dos resultados parece não haver essa relação, isto é, ao observarmos os resultados declarados pelos sujeitos para essa questão percebeu-se que a dor percebida não exerceu influência negativa qualidade de vida dos praticantes de corrida de aventura.

Em relação aos escores médios obtidos nos domínios do instrumento, observou-se que os escores médios dos domínios físico, social e meio ambiente encontram-se na chamada ‘região de sucesso’, ou seja, com pontuação superior a 71 pontos, em ambos os sexos. Nota-se um escore médio maior no domínio físico comparado com os outros domínios, tanto nos homens quanto nas mulheres.

É provável que os escores mais elevados no domínio físico seja em virtude de um ótimo nível de condicionamento físico necessário para a participação nas CA’s. É consenso na literatura científica que o exercício físico crônico produz benefícios nas esferas físicas e social elevando a qualidade de vida do praticante.

O domínio social também apresentou valores acima de 71 pontos. O que indica as CA’s  como um espaço de construção de novas amizades e novas experiências entre os corredores. Para Ferreira (2003) as CA’s demonstram ser um potencial espaço de intercambio cultural e afetivo entre os sujeitos.

O domínio psicológico foi o único domínio a apresentar escore médio (68,62) fora da ‘região de sucesso’. Esse fato pode estar associado ao estresse e ansiedade experimentado durante as corridas, visto que os corredores de aventura são levados a vivenciar situações adversas de clima e relevo além de privação de sono e má alimentação. Ferreira et al (2008) relatou que nível médio de ansiedade entre corredores catarinenses,  sendo as principais causas da ansiedade a orientação no percurso, o rendimento físico da equipe, a expectativa do resultado e a expectativa com o equipamento e alimentação. Resultados semelhantes também foram encontrados no estudo de Antunes et al (2006).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo mostrou que se trata de uma população jovem, com bom nível de escolaridade, e a maior parte da amostra pertence ao nível sócio econômico A e B.
Os resultados indicaram que toda a amostra avalia sua qualidade de vida como boa ou muito boa, e ainda que 79% encontram-se satisfeitos ou muito satisfeitos com a saúde. Apenas 24% relataram que a dor física prejudica de alguma maneira suas atividades diárias

Os resultados do WHOQOL nos domínios físico, social e meio ambiente apresentaram dentro da “zona de sucesso”, acima dos 71 pontos, comprovando a hipótese que nessa amostra, a prática da corrida de aventura pode interferir positivamente na qualidade de vida de seus praticantes. Porém vale lembrar que não podemos generalizar esse resultado, visto que é necessário que sejam realizados mais estudos com esse enfoque envolvendo uma quantidade maior de praticantes de corrida de aventura.

Outro dado que chamou a atenção no estudo foi que o escore médio do domínio psicológico apresentou-se inferior aos outros domínios, nesse sentido é necessário uma investigação mais aprofundada visando detectar se essa foi uma tendência apenas nesse estudo se essa é uma tendência constante estudos com praticantes de esportes de aventura.

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Estudos geográficos na prática esportiva

autor: Jeyller Henrique Rosa de Araújo – jeyller@hotmail.com

Trabalho apresentado como monografia de conclusão de curso de graduação, do Curso de Geografia e Análise Ambiental, do Centro Universitário de Belo Horizonte, UNI-BH.
Orientadora Professora Ms. Fabiana S. R. Faria.

RESUMO
A partir de pesquisas sobre os esportes que utilizam a Orientação Cartográfica, como a Corrida de Orientação, Corrida de Aventura e Radical trekking, o presente trabalho busca tornar público, principalmente perante a comunidade acadêmica, a importância e os benefícios que estes esportes que empregam ensinamentos geográficos podem trazer ao processo de ensino, em todos os níveis do aprendizado. Estas atividades desportivas que utilizam mapas e bússolas, surgiram impussionados pelo desporto Orientação e hoje já se ramificou em outras atividades com características diferentes, porém, reserva grande importância, em qualquer de seus segmentos, em um objeto de estudo da Geografia que é a Orientação Cartográfica. De uma forma geral, possuem como principais características caminhar, trotar, correr, pedalar de bicicleta, executar técnicas verticais, remar em variados tipos de embarcações, entre outras modalidades desportivas, sempre utilizando a natureza, através de montanhas, rios, campos, florestas, ravinas, lugarejos, ultrapassando diversos obstáculos através do espaço geográfico, e para não se perder no terreno ou buscar os melhores caminhos, utiliza-se a técnica de orientação empregando um mapa. Para os indivíduos colocarem em prática suas habilidades em todas estas atividade é necessário o desenvolvimento de competências essenciais, tanto intelectual, como física e moral. Devido a interdisciplinaridade desenvolvida nestas práticas desportivas, podemos concluir que esta atividade é uma excelente ferramenta pedagógica em qualquer nível do aprendizado. Além disso estes desportos utilizam a natureza como campo de jogo e cultuam a proteção e preservação do meio ambiente o que também serve para enautecer esta prática saudável. Os benefícios citados justificariam a prática dos esportes que utilizam a Orientação Cartográfica além da inclusão da iniciação ao esporte em currículos escolares, nas disciplinas correlacionadas como a Geografia, a Educação Física, o Turismo e a Ecologia, como procura demonstrar a presente monografia.

Palavras-Chave: Orientação Cartográfica, Corrida de Orientação, Corrida de Aventura, Radical Trekking, Geografia no esporte, Modalidade Orientação, Orientação na escola, Esporte multidisciplinar, Esporte Junto a Natureza.

Análise dos Métodos de Treino para Corridas de Aventura

Autor: Raphael Scheffer Contin
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

 

RESUMO
A busca por novas descobertas e lugares novos é uma constante na história da humanidade, e a palavra aventura pode ser considerada como um resumo dessa necessidade. Em 1989 foi criado o conceito de corridas de aventura, que nada mais é do que a expressão dessa necessidade em forma de competição. Sendo essa uma modalidade bastante nova, uma das dificuldades que os atletas encontram é justamente fazer um treino específico para esse esporte.

Contudo, em uma atividade com tantas disciplinas e variáveis em geral, é necessário um treino bem direcionado de forma a suprir todas as necessidades da mesma. O presente estudo é uma pesquisa comparativa e descritiva, que utilizou um questionário com perguntas abertas e fechadas como instrumento de pesquisa. A amostra foi composta de dezessete atletas da elite nacional. O objetivo desse trabalho é a construção de subsídios que auxiliem no aprimoramento da metodologia, e das técnicas utilizadas no treinamento desse esporte.

Analisando os métodos de treino dos principais atletas brasileiros de corrida de aventura, formamos uma lista de pontos relevantes no que diz respeito ao treinamento desses atletas. Descobrimos que 65% dos atletas da elite nacional têm menos que 30 anos de idade, e 70% são do sexo masculino. Menos de 60% desses atletas têm seus treinos organizados por um treinador formado em Educação Física. Além disso, 65% utilizam treinos resistidos com peso em sua preparação, e 88,2% utilizam alguma forma de suplementação alimentar. Com esses, e outros, pontos descobertos, podemos aprimorar a metodologia de treino utilizada nesse esporte.

Palavras-chave: aventura; corrida de aventura; treino específico; métodos de treino; capacidades físicas.

Introdução
As corridas de aventura fazem o homem voltar à suas origens, despertando o instinto desbravador, explorador e aventureiro no homem moderno. Apesar disso, esse é um esporte um tanto quanto recente, tanto no Brasil como no resto do mundo. Porém, quando comparado a outros países como Nova Zelândia e França, o Brasil tem ainda menos tradição, sendo que a primeira prova brasileira aconteceu em 1998.

Dessa forma, os métodos de treinamento utilizados pelos atletas brasileiros de corridas de aventura não estão plenamente desenvolvidos. Pelo contrário, como muitos atletas vêm de outros esportes, eles acabam utilizando os métodos de treino de seus esportes de origem. É muito comum encontrarmos ex-triatletas, ex-ciclistas, ex-canoístas e outros, correndo provas de aventura, e uma vez que eles não sabem como fazer um treino específico para as corridas de aventura continuam treinando da forma que eram acostumados a treinar. Assim, o objetivo principal desse trabalho é analisar os métodos de treinamento utilizados por atletas de corridas de aventura, propondo algumas mudanças para melhorá-los e deixá-los mais específicos para o esporte em questão, assim como criar subsídios para a elaboração de novas metodologias de treino.

Para tal, a execução desse trabalho partiu praticamente da estaca zero, pois no Brasil existem poucas publicações acadêmicas a respeito do assunto. Contudo, existem sites da internet especializados no assunto. Além disso, existem publicações neozelandesas e americanas que se aprofundam nos mais diversos campos das corridas de aventura, dentre eles os métodos de treino. Também foram entrevistados alguns dos melhores corredores de aventura do Brasil. Suas entrevistas foram analisadas a fim de se isolar os métodos mais eficientes utilizados hoje em dia.

Outro aspecto importante para entender os métodos utilizados por corredores de aventura é o aspecto histórico das corridas. Ao longo dos anos as corridas vêm assumindo diferentes características e os treinos têm que se adaptar a essas mudanças. Nesse ponto, é muito importante o entendimento das regras pertinentes aos vários tipos de corridas de aventura.

 

Referencial Teórico
As origens das corridas de aventura estão ligadas às corridas multi-esportivas (corrida em montanha, canoagem e mountain biking) realizadas na Nova Zelândia. Steve Gurney, neozelandês e um dos atletas que mais participou desse esporte, já competia em corridas malucas multi-esportivas na sua terra natal em meados dos anos 70: “Eu me lembro de caminhar montanha acima, esquiar morro abaixo, e então remar por horas para ganhar uma cerveja como premiação. Era bem divertido”, dizia ele (CALDWELL; SIFF, 2001).

Em 1989 foi criado o Raid Gauloises. Realizado pela primeira vez na Nova Zelândia, essa foi a primeira prova no formato das corridas de aventuras atuais, ou seja, equipes mistas (integrantes dos dois sexos) tinham que largar e terminar a prova como uma unidade. Criado por Gerard Fusil, o Raid rapidamente popularizou as corridas de aventura na Europa (principalmente na França, país de Fusil), Austrália e Nova Zelândia. Para muitos o evento foi visto como o maior teste da resistência humana. Além disso, nos anos seguintes o Raid Gauloises passou por locações diferentes em todo o mundo, sempre com um percurso muito longo e desafiador.

As corridas e aventura chegaram ao Brasil através do empresário Alexandre Freitas, que ao participar de uma corrida de aventura na Nova Zelândia, ficou tão envolvido com o que vivenciou que resolveu implantar em nosso país (TOGUMI, 2002). Nasceu assim a Sociedade Brasileira de Corridas de Aventura, que é a organizadora da mais tradicional prova brasileira, a Expedição Mata Atlântica (EMA).

A definição clássica diz que as corridas de aventura são eventos multi-disciplinares, com vários dias de duração, sem paradas obrigatórias, disputado por equipes auto-suficientes em um ambiente selvagem. Em alguns casos pode ser chamada de uma expedição com horário limite. O objetivo das equipes é o de ser o primeiro time completo a cruzar a linha de chegada. Normalmente as equipes devem ser mistas, formadas por competidores masculinos e femininos. O número de integrantes em cada equipe varia de acordo com a prova, no entanto na maioria das provas as equipes são formadas por quatro integrantes que devem permanecer juntos o tempo inteiro (CALDWELL; SIFF, 2001).

Podemos dividir as corridas de aventura em quatro tipos de acordo com a duração e formato da mesma:

• Corridas de curta duração: o tempo do vencedor varia de duas a dez horas e pode incluir as categorias equipe e individual.
• Corridas de fim de semana (médias): o tempo da equipe vencedora fica entre doze e trinta horas e o percurso tem entre 70 e 220 km.
• Corridas de expedição (longas): a equipe vencedora leva de três dias a duas semanas para completar a prova e o percurso varia entre 300 e 1000 km.
• Corridas de estágios: dura de dois a cinco dias e as equipes devem parar no final de cada dia, ou após certa etapa ter sido completada. O vencedor é a equipe que tiver o menor tempo acumulado nas etapas.

Uma corrida de aventura envolve uma grande variedade de disciplinas ou modalidades. As disciplinas mais comuns são a orientação, trekking, mountain biking, natação, canoagem (em diversas embarcações) e técnicas verticais (rappel, escalada, tirolesa, etc.). Essas disciplinas são encontradas em todos os tipos de prova, no entanto outras disciplinas já foram incluídas, principalmente nas corridas de média e longa duração. Dentre elas podemos citar o patim in-line, pára-quedismo, esqui na neve, vela, corrida em camelos, costeira, canyoneering, rafting, exploração de cavernas (caving), cavalgada, etc. (MANN; SCHAAD, 2001).

Ian Adamson, um dos melhores corredores de aventura do mundo, costuma dizer, “Para ser um bom corredor de aventura, você precisa ser um bom generalista”. Em outras palavras isso quer dizer que habilidade em apenas uma modalidade não é suficiente. Não adianta ser um ciclista de nível olímpico, se o atleta não conseguir remar um caiaque de modo satisfatório. Ele vai gastar muito tempo remando, vai fadigar, e pode ficar hipotérmico por permanecer muito tempo na água fria. Ser bom em uma modalidade em particular pode ajudar, mas não vai fazer alguém ganhar uma prova, porém não ser hábil suficiente em uma modalidade vai fazer com que o atleta perca a prova.

O condicionamento físico de um corredor de aventura deve ser mais voltado para a robustez. O atleta deve ser capaz de permanecer correndo durante 24h ou até nove ou dez dias. Deve ser capaz de progredir rapidamente, e sem parar, através de terrenos acidentados (PATERSON, 1999).

Porém, na maioria das modalidades esportivas, quando pensamos nas capacidades evidenciadas para a prática da mesma, logo pensamos nas capacidades físicas para tal. Força, velocidade, agilidade e resistência são algumas das capacidades físicas mais lembradas. No entanto quando falamos sobre corridas de aventura não podemos nos fixar nas capacidades físicas. Em uma corrida de aventura existem muito mais variáveis do que se imagina para se alcançar um bom resultado.

Além de um físico bem treinado e uma boa técnica das modalidades envolvidas, o atleta precisa ser psicologicamente forte e equilibrado para suportar e saber lidar com adversidades trazidas pela natureza. Muitas vezes o risco de um acidente é inerente, e o fator psicológico permite o equilíbrio emocional necessário para que o atleta saia de uma situação de risco (muitas vezes risco de vida). Outra capacidade crucial que os atletas devem ter nas corridas de aventura é a capacidade de programar como será a sua prova. Uma vez que cada prova é completamente diferente da outra, a estratégia e a logística ganham enorme importância. Por último, mas não menos importante está a capacidade de integração da equipe. Sendo esse um esporte disputado por equipes, e, além disso, onde o componente psicológico está sendo sempre levado ao extremo, a capacidade dos atletas de trabalhar em equipe e a integração da mesma são fundamentais.

Chegamos então a cinco componentes principais que devem ser considerados na elaboração de um treino para corredores de aventura. São eles: o físico, o técnico, o psicológico, o tático, e o componente que diz respeito ao entrosamento da equipe, o qual chamaremos de componente de convivência social, ou simplesmente componente social. A ordem de importância desses componentes não é fixa, ela pode variar dependendo da duração da prova.

No que diz respeito às necessidades energéticas, as atividades envolvidas em uma corrida de aventura também são muito diferentes. Porém as longas distâncias que são percorridas requerem um fluxo contínuo de energia durante um longo período de tempo. Portanto, a grande maioria do trabalho realizado durante uma prova desse tipo requer um abastecimento aeróbico. Existirão horas, no entanto, em que será necessário dar um sprint , ou executar curtas explosões de grande intensidade que necessitam de um rápido acesso a um grande volume de energia (MANN; SCHAAD, 2001). Contudo, dentre todas as capacidades físicas envolvidas em uma corrida de aventura, podemos dizer que a mais importante é, sem dúvida alguma, a resistência física. Sob resistência compreende-se em geral a capacidade psicofísica do esportista resistir à fadiga. Já resistência física é a capacidade do organismo como um todo, bem como de cada sistema parcial, de resistir a fadiga. Porém, existem diversas manifestações da resistência (geral e local, geral e específica, aeróbia e anaeróbia, etc.), (WEINECK, 2000), e cada uma dessas manifestações tem maior ou menor importância para as corridas de aventura.

O componente técnico de uma corrida de aventura pode variar de acordo com as modalidades que se encontram na mesma. De uma maneira geral, a maioria dos autores sobre o assunto coloca que se deve treinar a técnica das modalidades chamadas de modalidades padrão, ou seja, aquelas que se encontram na maioria das corridas. Praticamente todos os livro sobre corridas de aventura falam dessas modalidades: navegação, trekking, mountain biking, canoagem, e técnicas verticais. Um bom corredor de aventuras deve pelo menos dominar a técnica dessas modalidades consideradas padrão. O treino dessas técnicas deve estar incluído na periodização do treinamento do atleta. O emprego de técnica correta em determinada modalidade pode fazer com que o atleta poupe energia e tenha um rendimento muito melhor do que outro que não domine as técnicas da mesma. Outras modalidades mais específicas devem ser treinadas de acordo com as competições nas quais a equipe vai participar.

Não há dúvidas que o sucesso nas corridas de aventura é uma combinação de força mental, concentração, e vontade, em conjunto com as habilidades de cada modalidade e uma capacidade de resistência física à fadiga muito grande. No entanto, muitos consideram a capacidade psicológica do atleta como o componente mais importante para se alcançar um bom resultado nas corridas de aventura.

Acreditar em sua capacidade de ir além do que se pensa possível, ter a atitude correta no momento correto, e se manter concentrado durante toda a prova são premissas que os melhores atletas tentam buscar durante uma prova (CALDWELL; SIFF, 2001). Talvez um dos aspectos mais profundos de uma corrida de aventura seja o desconforto. Quando se está competindo, principalmente por mais de uma noite, o nível de desconforto aumenta de forma exponencial. A sujeira e o suor fazem um monte de terra parecer o melhor travesseiro no qual se pode encostar a cabeça para uma rápida soneca. As usuais oito horas de sono por dia se transformam em menos de uma ou duas horas. Além disso, não se pode parar para comer. É necessário constantemente comer correndo, pedalando, ou remando. Muitas vezes os atletas ficam 24 horas ou mais molhados e sem poder trocar de roupas. Os pés ficam extremamente doloridos, pois absorvem a carga de dias de esforço contínuo.

Em resumo, a vida se transforma em uma seqüência de atitudes para sobreviver com o intuito de se locomover o mais rápido possível. O quão longe se pode ir com um nível tão intenso de desconforto? Dessa forma os atletas que se sairão melhor serão aqueles que tiverem maior tolerância à dor e ao desconforto (MANN; SCHAAD, 2001). A melhor maneira de se aumentar a tolerância ao desconforto é treinando em condições reais de prova, ou seja, desconfortáveis. Não adianta treinar apenas em dias ensolarados ou em condições climáticas favoráveis, pois nem sempre se encontra essas condições durante as corridas. Um bom treinamento psicológico é esperar aquele dia chuvoso, frio e com muito vento, e sair para treinar ao ar livre. Longos treinos de bicicleta, trekking, canoagem, ou até uma combinação de modalidades nessas condições vão preparar o atleta para quando encontrar essas condições (que não são raras) durante as corridas (CALDWELL; SIFF, 2001).

Pode-se dizer que o componente tático é muito mais difícil de ser treinado do que os outros. As equipes com boa tática normalmente são as equipes mais experientes. Portanto o aperfeiçoamento da tática adquire-se com a experiência. No entanto, existem algumas situações que certamente acontecerão nas corridas, e quanto mais conhecimento das táticas utilizadas nessas situações, mais poderemos treinar as técnicas necessárias para utilizá-las. As táticas de prova são inúmeras, e seria impossível descreve-las todas. A única coisa que é certa é que o componente tático é desenvolvido com a experiência da equipe.

A corrida de aventura é um esporte disputado por equipes. A largada é feita em equipes, cada PC é atingido em equipe, e da mesma forma a meta final deve ser atingida com a equipe formando uma unidade. Uma das causas que mais tiram equipes de corridas de aventura é a falta de coordenação nas dinâmicas da equipe (MANN; SCHAAD, 2001). A raça humana é uma espécie única, nós possuímos uma enorme gama de emoções, muitas das quais são extremamente frágeis. Nós podemos ter personalidades fortes que requerem um alto grau de afirmação para assegurar uma existência adequada. Ou então, nós podemos ter personalidades facilmente adaptáveis (que se encaixam bem para corredores de aventura).

Por essa razão, é importante treinar freqüentemente em equipe, se colocando em situações desafiadoras, e assim conhecendo os pontos fortes e fracos, física e mentalmente, de cada integrante da equipe. Além disso, para que uma equipe tenha um bom entrosamento, trabalhando em pró de um objetivo comum, é preciso que todos os integrantes tenham o mesmo objetivo (MANN; SCHAAD, 2001). Assim como uma corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco, uma equipe é tão veloz quanto o seu integrante mais lento.

Materiais e Métodos
A pesquisa realizada nesse trabalho é comparativa e descritiva. Comparativa porque compara os métodos de treino utilizados pelos atletas, e descritiva porque descreve e questiona quanto aos treinos realizados (MARCONI, 2001).

A fim de se medir com maior exatidão o estudo proposto (CERVO, 1996), o instrumento de coleta de dados utilizados foi um questionário. O questionário deste trabalho foi composto por perguntas abertas, fechadas e de múltipla escolha. Após ser validado por professores acadêmicos ligados à área do treinamento desportivo, o questionário foi enviado via internet para os atletas, juntamente com uma carta explicando a natureza da pesquisa.

A amostra foi composta de atletas da elite das corridas de aventura do Brasil. O questionário foi enviado para as dez primeiras equipes do Circuito Brasileiro de Corridas de Aventura de 2002. Como cada equipe tem quatro integrantes o questionário teve uma abrangência de quarenta indivíduos, mas apesar disso obtivemos apenas dezessete respostas. No entanto, em média, os questionários expedidos pelo pesquisador alcançam 25% de devolução (MARCONI, 1999), e esse obteve 42,5% de devolução, o que aumenta a credibilidade da pesquisa.

Foram utilizadas basicamente duas formas de tratamento de dados. Tanto dos dados obtidos através dos questionários e da pesquisa propriamente dita, quanto dos dados retirados de pesquisas bibliográficas no referencial teórico. O mais utilizado foi o percentil, porém também se fez uso algumas vezes da média aritmética.

Resultados e Discussões
A corrida de aventura é um esporte no qual atletas de várias faixas etárias podem ter uma performance competitiva. Nas grandes provas internacionais, até o ano 2000, esse esporte era dominado principalmente por atletas com pelo menos 30 anos de idade. Porém, a partir de 2001 muitas equipes com atletas jovens também começaram a se destacar. A partir dos questionários nota-se que grande parte dos atletas de elite do Brasil nesse esporte estão em uma faixa etária mais baixa do que se pensava. Historicamente, em provas internacionais os atletas mais experientes se sobressaem, porém nesse caso não foi comprovada a hipótese que relaciona a experiência à maior resistência e bom desempenho. Outro ponto interessante desse gráfico é a questão do sexo dos atletas. Apesar da maioria dos atletas de ponta serem do sexo masculino, sabe-se da existência de equipes muito fortes predominantemente femininas, o que prova que esse é um esporte para todos, tanto no que se refere à idade, quanto ao que diz respeito ao sexo do atleta.

Também se pôde concluir que esse é um esporte praticado por uma classe social privilegiada. Porém, ainda é muito difícil sobreviver do esporte, o que faz com que alguns destes indivíduos precisem ter outras atividades. Através dos questionários notou-se que menos de 25% dos atletas entrevistados são profissionais (essa taxa é relativa aos atletas de elite das corridas de aventura, se formos analisar no geral a taxa seria muito menor). Isso faz com que a periodicidade dos treinos e a duração das sessões, sejam afetadas, pois se todos os atletas fossem profissionais e não precisassem dividir seu tempo de treino com outras tarefas, certamente o tempo e a periodicidade das sessões de treino seria outro. Portanto, para elevar o nível de nossos atletas, é preciso que os mesmos tenham o apoio de empresários que patrocinem o esporte. Também é necessário o apoio do governo ao esporte de um modo geral, fazendo leis que incentivem a iniciativa privada a apoiar os atletas brasileiros.

Quanto à organização do treino, a maioria dos atletas (58,8%) revelou que têm seus treinos organizados por treinadores formados em Educação Física. Por um lado isso é muito bom para nós profissionais dessa área, no entanto esse número ainda pode ser aumentado, de forma que esse é um mercado promissor para treinadores e preparadores físicos.

Outra maneira de elevar ainda mais o nível da preparação dos atletas seria com uma maior participação de profissionais de outras áreas ligadas ao treinamento dos atletas. Revelou-se nas respostas uma baixa utilização de outros profissionais que poderiam auxiliar no treino além de professores de Educação Física. Fisioterapeutas, médicos, nutricionistas e outros, são muito importantes para o melhor desenvolvimento do atleta.

Quando relacionamos algumas das respostas obtidas nos questionários, percebemos algumas informações contraditórias. Apesar de apenas pouco mais de 30% dos atletas serem auxiliados por nutricionistas, percebe-se que mais de 85% deles utilizam suplementação alimentar. Outro ponto contraditório mostra que apenas cerca de 40% dos atletas fazem algum tipo de controle de treino, porém mais de 75% deles são auxiliados por profissionais de Educação Física. Esse tipo de informação nos mostra um certo “amadorismo” no que diz respeito à preparação dos atletas em geral. Outro ponto um tanto quanto inesperado, é que em um esporte com um risco tão elevado de ocorrer lesões, não se dê a devida importância para a recuperação pós-prova.

Quanto à preparação física dos atletas estudados colocamos dois pontos principais: o desenvolvimento das capacidades aeróbicas, e o desenvolvimento de força e velocidade. Para o primeiro ponto os treinos longos e contínuos das modalidades básicas (ciclismo, corrida, natação, e alguns canoagem) são realizados por praticamente 100% dos entrevistados. Além disso, também são utilizados por alguns atletas (cerca de 40%) os treinos intervalados alternadamente com os contínuos. Uma minoria ainda utiliza tiros de longa distância em seu treinamento. No segundo ponto foram citados três tipos principais de treino: a musculação (65%), treinos intervalados de curta duração (tiros) em diversas modalidades (40%), e treinos das modalidades básicas com um acréscimo de carga como corrida na areia, ciclismo em ladeira, etc. (30%).

 

Considerações Finais
Organizar o treino de um atleta de corridas de aventura, como pôde ser visto, não é uma missão das mais simples. O grande número de fatores envolvidos nesse esporte deixa essa tarefa extremamente complexa. Devido a essa alta complexidade, a grande maioria dos atletas prioriza alguns componentes do treino que acham mais importantes, deixando muitas vezes de lado outros componentes fundamentais para o bom preparo do atleta. Notadamente, o componente mais priorizado é o físico seguido pelo técnico. Porém componentes importantes como o tático e o psicológico são muitas vezes esquecidos. Além disso, nem sempre o componente físico é trabalhado de forma completa e/ou adequada.

Depois de analisar os resultados obtidos com a pesquisa efetuada nesse trabalho, observa-se que muito do que está sendo usado pelas equipes de ponta pode ser incluído em um “treinamento ideal”. Afinal de contas, se essas são as melhores equipes do Brasil, deve-se ter um motivo para tal. Contudo, se acrescentássemos o treinamento dos outros componentes esquecidos, o nível das equipes brasileiras se aproximaria das melhores do mundo. Mais uma vez colocamos aqui a proposta dos cinco componentes principais a serem treinados. Dessa forma as equipes teriam mais facilidade no planejamento e execução de seus treinamentos.

Sabemos que o treino de um atleta nem sempre pode ser igual ao treino de outro, caso contrário estaríamos quebrando o princípio da individualidade biológica. Por isso pôde-se observar uma variedade grande no que diz respeito ao treinamento físico dos atletas entrevistados. Além disso, fica complicado especializar o treinamento em um esporte tão generalista como é a corrida de aventura. O “leque” que se abre oferecendo diferentes opções de treino é enorme, e torna-se difícil afirmar o que é mais e o que é menos eficiente. Certamente, o que é bom para um atleta não é necessariamente bom para outro, todavia, em outros esportes essa linha que divide o bom e o ruim é muito mais tênue do que nas corridas de aventura.

Enfim, o Brasil apresenta condições climáticas e geográficas favoráveis para o treinamento de seus atletas de corridas de aventura (faltando apenas ambientes de alta montanha com neve). Essa modalidade possui milhares de atletas espalhados pelo planeta e tem tudo para desenvolver-se muito mais, portanto os profissionais que se dedicam ao estudo dos métodos de treino para as corridas de aventura, certamente estarão colaborando para o fortalecimento dessa envolvente modalidade esportiva.