|  Dr. Adrian Cohen e Evelyn Parolina. foto: Wladimir Togumi/adventuremag | As surpreendentes histórias de Adrian Cohen, o homem que comanda o resgate e os cuidados médicos do Eco-Challenge Por Ana Karla Rodrigues AM: Saindo um pouco do Eco-Challenge... Você chefiou a equipe médica do programa de TV "Survivor", produzido pela CBS e também idealizado por Mark Burnett. Aqui no Brasil, tivemos uma versão deste programa, batizado "No Limite", transmitido pela Rede Globo. Como foi essa experiência? AC: Eu fiz cinco edições do Survivor e acabo de voltar da Tailândia, onde aconteceu o último e mais difícil deles. Passamos dois meses suportando temperaturas altíssimas - 56°(pasmem) - umidade do ar sempre próxima dos 100%. Tivemos 15 casos de participantes do programa que adoeceram e tiveram de ser internados. Mas eu vejo o Survivor como um misto de gincana e maratona: são sete semanas de programa para cinco de planejamento. Já o Eco-Challenge é uma corrida de dez dias, que precisa de um planejamento de um ano! AM: Mas no quesito "atendimento médico" eles se parecem? AC: No programa de TV as lesões não eram tão graves quanto numa corrida de aventura, o que fazia o tratamento ser mais rápido. Mas o preparo prévio que exijo da equipe é o mesmo. Nas corridas de aventura, há lesões que demoram meses, até mesmo anos, para serem tratadas completamente. Para mim, a grande diferença é que no programa de TV, você perde e sai. No Eco-Challenge, um atleta se machuca ou fica doente, e a equipe é desclassificada. São quatro pessoas em jogo, o que determina tudo. Os outros três podem até continuar, mas o ânimo e a confiança caem por terra, em alguns casos. AM: Espírito de equipe ocupa qual porcentagem de importância numa corrida de aventura? AC: Acredito que 50%. Os outros 50% é a confiança que se tem em si mesmo, a determinação que o move a cumprir cada uma das etapas da prova, o sonho da premiação ou qualquer outra coisa que faça um atleta seguir em frente. Não basta apenas muito treino e investimento em bons equipamentos se a equipe não pensa da mesma forma. Em Bornéu, um atleta perfurou um dos pulmões durante a perna de bicicleta, ao cair sobre uma árvore. Foi um dos resgates mais difíceisque já fizemos, numa área de acesso complicadíssimo. O resto da equipe, mesmo muito abalada, resolveu seguir adiante e terminou a prova muito unida. O que observo é que a cada edição do Eco-Challenge, mais equipes terminam a prova fortemente juntas. O que mostra que a forma de enfrentar as adversidades é o que vai determinar o sucesso, unindo, ou o fracasso, provocando brigas e desunindo. AM: Mas há equipes que brigam muito e tem bons resultados... AC: Sim, claro. Mas pode ter certeza que não correm mais que uma prova juntos... (risos). Não tenho uma receita para manter a união numa equipe, mas durante todos esses anos, notei que muitas equipes que não são de ponta tem atletas muito mais tranqüilos que os de elite, e tem mais respeito um pelo outro. Tudo bem, sabemos que a competição atinge índices que muitas vezes superam os limites do corpo, que um Eco-Challenge é uma prova dura, longa, que pede um equilíbrio emocional alto, que muitas vezes não conseguimos manter. Admiro equipes que enfrentam os problemas com calma, e quando possível, com alegria. Na Nova Zelândia, em 2001, havia uma equipe mexicana, cujo nome não me lembro, formada por quatro garotos, dois deles irmãos. Eles perderam várias posições ao longo da prova, se perderam, mas se mantiveram unidos e risonhos. Coisa muito rara! AM: Qual foi a corrida mais difícil para você até hoje? AC: Hum, acho que Bornéu... A primeira corrida da qual participei, em 1997, na Austrália, foi a mais complicada psicológica e fisicamente, porque estávamos começando, nossa equipe era formada por apenas sete pessoas, quando deveriam ser vinte. Todos estavam muito estressados, havia muita gente doente e pouco equipamento. O que fez de Bornéu foi a dificuldade imposta pela selva. Nós tivemos uma quantidade enorme de problemas devido a isso: milhares de sanguessugas, muitos traumas no pescoço, na cabeça e na coluna, e aquele caso do atleta que teve o pulmão perfurado... Ele teve muita sorte! Nós o levamos de volta para o acampamento-base e em menos de uma hora estávamos a três milhas de distância dali, num bom hospital. Fizemos um rápido curativo, o colocamos no helicóptero e atravessamos o país para levá-la para um hospital na Malásia, onde ficou por dez dias. Ele ficou bem, e já voltou a competir. Mas os riscos de acidentes são sempre maiores nas etapas terrestres, principalmente porque na maioria das vezes o ritmo das equipes é muito acelerado, e as irregularidades no terreno e variações de altitude podem ser uma ameaça, principalmente à noite. AM: E qual foi a corrida mais tranqüila? AC: Para minha grande surpresa, foram as provas na Nova Zelândia, no ano passado, e na Argentina, em 1999. Nós esperávamos por muitos problemas como hipoglicemia, hipotermia e lesões graves, devido à neve e ao fato de os atletas passarem a maior parte do tempo molhados. Mas houve poucos resgates, e só casos de rotina. Na Nova Zelândia, tivemos três dias sem tipo algum de resgate. AM: Você acha que teria um bom desempenho como atleta de corrida de aventura? AC: Eu jamais poderia fazer isso (risos)! Meus melhores conhecimentos são os médicos, mesmo! Mas acho que para competir numa corrida, não basta ser um atleta de ponta; deve-se ter um enorme equilíbrio mental. Além disso, a maioria dos atletas de aventura tem um estilo de vida que permite que se dispenda um grande tempo para os treinos diários. Além disso, é necessário muito dinheiro... Os equipamentos, as inscrições para as provas, toda a infraestrutura necessária para se participar de um Eco-Challenge, por exemplo, é caríssima. Toda essa dedicação ao esporte exige que o atleta tenha um bom emprego, e de preferência, de meio período, o que sabemos que é muito complicado de se ter (risos)! Eu jamais poderia me dividir dessa forma. Muitas pessoas na equipe de resgate se apaixonaram pelas competições e têm um bom desempenho. Quando já se têm bons conhecimentos de orientação e medicina, basta entrar com os treinos fortes. Essa combinação dá muito certo. AM: Você conhece a maior das corridas de aventura brasileiras, a Expedição Mata Atlântica (EMA)? AC: Não, não conheço, não li nem vi nada a respeito. Sabia de sua existência através da equipe AXN, mas apenas isso... Eu procuro me informar sobre as corridas que acontecem em todo o mundo, mas nem sempre consigo! AM: Existe algum tipo de exame anti-doping no Eco-Challenge? AC: Sim, mas nos últimos quatro anos não o utilizamos. A história das corridas de aventura ainda é muito curta, e ao longo de todo esse tempo que trabalho no Eco-Challenge, tenho lutado para organizar esse controle de uma forma melhor. É complicado aplicar esse tipo de teste numa corrida de aventura, onde as regras são totalmente diferente dos esportes convencionais. Por anos, seguimos as instruções do Comitê Olímpico Internacional (COI), mas não deu certo. Há drogas específicas de cada esporte; há atletas que tomam esteróides para quebrar recordes ou ganhar medalhas. Já nas corridas de aventura, onde o corpo dos atletas está submetido a milhares de situações adversas, numa competição que dura até dez dias, não adianta nada tomar pílulas mágicas que mantém a resistência física se a emocional já está muito fraca. Eu tenho uma filosofia simples quanto a essa questão: acredito que drogas vão contra o espírito de uma corrida de aventura. AM: Quais são os medicamentos usados por atletas de aventura que poderiam ser configurados como doping, em sua opinião? AC: Há dois tipos: os de performance e os meramente medicinais. Muitos atletas tomam estimulantes (cafeína, codeína), analgésicos, antitérmicos. Para mim, esses dois últimos podem ser usados, não seriam considerados doping. Mas para decidir o que deveria ou não ser liberado, deveria haver uma grande discussão entre os médicos esportivos, depois instruir as equipes médicas que trabalham nas provas, não apenas quanto à natureza de cada medicamento como no procedimento para detectar seu uso. Não podemos usar o mesmo procedimento do COI, definitivamente. AM: Você acha que os atletas de aventura que competem até o limite de seus corpos podem ter problemas graves de saúde no futuro? AC: Nas corridas de aventura, as condições nem sempre são a favor - diria até que na maioria das vezes são contra - mas mesmo assim, muitas pessoas, por menor que tenha ficado sua condição física ao longo da prova, decidem seguir em frente. Muitos atletas esgotados se sentem culpados ao pensar em parar, já que desclassificarão toda a equipe. Outros tem um senso de competitividade tão agudo que chegam a não se importar com a dor, de uma forma que acabam criando uma incrível resistência psicológica a sensações desagradáveis. Ao longo de todo esse tempo, venho acompanhando e observando diversas formas de cansaço e de reação a ele. Um exemplo de determinação foi um atleta norte-americano chamado Patrick Smazia. No Eco-Challenge da Colúmbia Britânica, em 1996, ele completou a prova mancando, com uma lesão grave na perna. No ano seguinte, na Austrália, lá estava ele novamente. No fim do segundo dia, depois de vários momentos de estafa, ele sofreu um derrame. Sua equipe, mesmo em pânico, seguiu em frente. Ele foi resgatado e levado para um hospital, onde ficou internado por três dias. Eu não diria que ele teve um comportamento repreensível por ter seguido mesmo tendo sofrido uma crise de estafa, que culminou no derrame. Isso é uma opção muito pessoal. Muitos encaram terminar a corrida como uma missão especial da qual jamais poderiam desistir. AM: Que conselho você dá para as três equipes brasileiras que vão participar do Eco-Challenge em Fiji? AC: Mantenham-se unidos! Determinem bem seus objetivos, para que problemas emocionais não afetem o físico e vice-versa. Comam bem em todas as transições e ao longo da prova, principalmente carboidratos. E tenham muita garra! |