ARQUIVO: O SALVA-VIDAS (PARTE 1)
(4/10/2002 - 00:44) - por Ana Karla Rodrigues


 


Dr Adrian Cohen, responsável médico do Eco-Challenge
foto: Wladimir Togumi/adventuremag

As surpreendentes histórias de Adrian Cohen, o homem que comanda o resgate e os cuidados médicos do Eco-Challenge
Por Ana Karla Rodrigues

Na Austrália, ele é considerado uma celebridade até entre pessoas que sequer imaginam o que é uma corrida de aventura. Calmo, falante e dono de uma grande simpatia, Adrian Cohen é um dos homens de maior responsabilidade no universo das corridas de aventura. Desde 1997, o australiano é o diretor médico do Eco-Challenge, a maior e mais dura prova da modalidade do mundo. Aos 41 anos ele é dono de um currículo vastíssimo, que inclui a direção médica do reality Show "Survivor", outro grande empreendimento do empresário Mark Burnett, o pai do Eco-Challenge.

Ele formou-se em 1983, em Sydney, e recebeu a "Honra da Primeira Classe de Medicina". Teve uma vida acadêmica considerada brilhante, na qual foi colaborador regular do University Newspaper e representante dos estudantes. Entre 1983 e 1986, Cohen cursou a pós-graduação nos hospitais Prince of Wales, Prince Henry, Royal North Shore e nos hospitais de distrito de Bega, na região de Sydney, especializado em ortopedia, traumatologia e medicina de emergência.

Fez parte da Força Aérea Australiana e acumulou mais de 1.000 horas de vôo em helicóptero, prestando serviços para governos e equipes esportivas de seu país, o que lhe rendeu experiência para comandar a equipe de resgate aéreo da competição.

Foi também apresentador e idealizador da Doctor´s Television Network, um canal de televisão que apresenta informação preventiva sobre várias doenças de uma forma simples e clara, dirigida ao grande público. Também fez participações em programas das emissoras "Australian Living", FX Channel e Channel Nine. Cohen também é diretor da Immediate Assistans, principal fornecedor de serviços médicos e cursos de treinamento na Austrália.

O médico recebeu exclusivamente a reportagem do Adventuremag num hotel de São Paulo, onde esteve para uma rápida visita. Confira a entrevista onde ele conta histórias incríveis sobre o Eco-Challenge.

Adventuremag : Você conheceu algum time brasileiro ao longo de todos esses anos de Eco-Challenge?
Adrian Cohen: No ano passado, na Nova Zelândia, conheci a equipe AXN (formada por Sílvia "Shuby" Guimarães, Karina Bacha e Eleonora Audrá). Neste ano, apenas sei que competirão três times brasileiros (Lontra Radical, AXN Atenah e EMA Brasil), mas não os conheci ainda.

AM: Essa é a sua primeira visita ao Brasil?
AC: Não, é a segunda. Estive aqui em 1999, depois do Eco-Challenge na Argentina. Na verdade só estive em Foz do Iguaçu, uma cidade bem interessante.

AM: E qual foi sua impressão sobre São Paulo?
AC: Não imaginei que fosse tão grande. Cheguei às cinco da manhã, na hora em que a cidade acorda e fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que vi nas ruas já àquela hora! Gostei bastante também do parque onde passei uma parte do meu dia de hoje (Ibirapuera).

AM: Sabemos que para fazer parte de uma equipe numa corrida de aventura é necessário vários requisitos. Quais são usados na seleção da equipe médica?
AC: Bom, esse é o meu grande segredo, mas agora vou contá-lo: eu passo vários meses por ano viajando pelo mundo, e nestas viagens escolho as pessoas mais bonitas para fazer parte da minha equipe (risos). Eu sempre procuro pessoas que tenham, além de bons conhecimentos médicos, gosto por aventura. Que sejam interessados, muito bons no que façam, tenham bom ânimo e saibam exatamente como lidar com situações limite.

AM: E é necessário que essas pessoas tenham experiência prévia em esporte de aventura?
AC: Não, não é necessário. Não posso procurar por pessoas que já tenham experiência em corrida de aventura, porque dentro do imenso universo de profissionais da área médica, são bem poucos que a têm. Na minha equipe atual, a grande maioria das pessoas não tinha experiência prévia.

AM: Há quantas pessoas na sua equipe?
AC: São quinze pessoas, sendo quatro médicos, quatro paramédicos, quatro especialistas em resgate, dois fisioterapeutas e um especialista em traumas.

AM: E há pessoas que estão com você há várias corridas?
AC: Sim, algumas. Mas na equipe de resgate há gente que vem trabalhando junto há mais de quinze anos, em atividades distintas. Isso porque na área de resgate não há como buscarmos pessoas novas, treiná-las, não há tempo suficiente para isso; os cuidados com os resgatados devem ser imediatos, deve-se saber trabalhar sob pressão, conhecer bem os equipamentos, e por isso optamos por gente experiente.

AM: Já na equipe médica, a rotatividade é maior...
AC: No time médico há mais chance de trazermos novas pessoas, que conseqüentemente trazem novos conhecimentos. Podemos aprender com eles, e eles conosco. Já na equipe de resgate isso é mais difícil de acontecer. Você tem de acreditar 100% na capacidade do pessoal, e as duas equipes, médica e de resgate, devem estar muito entrosadas. Por exemplo, no helicóptero que atende à essas duas áreas no Eco-Challenge, os socorristas devem ter estar alinhados com os médicos e enfermeiros para que possam atender a qualquer tipo de acidente. Se não há confiança total, há problemas.

AM: E essa é uma preocupação legítima, já que se está lidando com vidas...
AC: No time do resgate, a minha principal premissa é de que todos os membros devem voltar sãos e salvos para suas casas, assim como os atletas, os organizadores, todos que tomarem parte do Eco-Challenge. Mas a partir do momento em que saíram para uma missão de salvamento, todo esforço deve ser feito.

AM: Fale-nos sobre o helicóptero usado pela equipe de resgate do Eco-Challenge. Quais são as diferenças entre ele e um helicóptero normal?
AC: No Eco-Challenge temos quatro helicópteros. São dois para a logística, um para o pessoal da organização, um para filmagens e o nosso. Ele não tem o design e o conforto de uma aeronave normal; não tem encostos nem bancos em sua parte traseira. É uma aeronave sólida. Dentro dele, viajam um médico, um paramédico e um especialista em resgate. E eles têm duas funções: ter pleno acesso a todas as localidades da prova e resgatar os acidentados ou perdidos.
Neste último caso, a equipe deve estar apta a prestar os primeiros socorros, e se necessário, deslocá-lo ao hospital mais próximo. O equipamento médico inclui aparelhos especiais de imobilização para casos de traumas, como colares cervicais, talas para braços e pernas, um aparelho de eletrocardiograma, uma infinidade de remédios de todos os tipos e tubos de oxigênio. Isso sem contar os equipamentos pessoais, como rádios, capacetes e mochilas. Acredito que levamos cerca de US$ 500 mil em equipamentos dentro do helicóptero.

AM: Com quanto tempo de antecedência é feito o planejamento do resgate e do socorro médico?
AC: O serviço de resgate começa a ser planejado de um ano a seis meses antes da corrida. Isso não varia muito, porque é basicamente igual para qualquer localidade onde a prova se realize. Em Fiji, começamos em março, ou seja, sete meses antes. Geralmente fazemos todo o percurso da prova e avaliamos os riscos de uma forma geral. Na segunda fase, fazemos cada uma das pernas do percurso, de uma forma bem detalhada, esmiuçando cada ponto.

AM: E o que você mais leva em conta na hora de fazer esse planejamento?
AC: Todos os detalhes da topografia e da geografia do local me preocupam... mas uma coisa que sempre penso muito é na proximidade de hospitais da área onde está acontecendo a prova. Muitas vezes, eles são distantes demais, ou tem péssimas condições de higiene e conservação, ou contam com pessoal pouco qualificado... Outra coisa que pede uma atenção extra é o resgate em água. O acesso ao alto mar ou a rios com fortes corredeiras é bem mais complexo que às selvas. Nós sempre checamos as condições de acesso mais difíceis e o tempo que se levaria para atender a um acidente ou a algum atendimento médico urgente de outra natureza. Tem sido assim em todas as corridas.

AM: E as particularidades do clima e da vegetação da região são sempre levadas em conta no
planejamento do serviço médico?

AC: Sim, com certeza. Em cada prova há um problema médico característico ou alguma dificuldade originária das condições climáticas. Na Nova Zelândia, no ano passado, era o frio que podia causar hipotermia; na Argentina, em 99, a mesma coisa; no Marrocos, em 98, as grandes altitudes provocaram tonturas em muitos atletas; em Bornéu, foi a desidratação e a diarréia.
Fiji tem um clima quente e úmido, o que pode causar vários casos de desidratação. Isso sem
falar das assaduras devido ao excesso de contato com as roupas e com o selim da bicicleta, as lesões de ligamentos e as bolhas nos pés, que são as ocorrências mais comuns numa corrida, aconteça onde acontecer!

AM: Você disse que durante o planejamento da corrida a equipe visita e checa as condições dos hospitais. O que você achou dos hospitais de Fiji?
AC: Para ser bem sincero, os hospitais de lá não são bons, nem na capital, Suva, que tem cerca de 100 mil habitantes. Acho que problemas muito graves, como lesões na coluna ou no pescoço,
não poderiam ser tratados lá. Mas temos a possibilidade chegarmos a qualquer outro bom hospital
da Ásia a bordo de nosso helicóptero, o que ameniza os riscos.

 

 

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